segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Curiosidades Cinematográficas (5)

Cartazes



Qualquer semelhança entre as imagens é mera coincidência.

Ah, mas a curiosidade é descobrir na segunda imagem quem é Jules e quem é  Jim. Uma entrada de cinema virtual para quem acertar essa.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

A Mulher sem Piano

A Mulher sem Piano – La Mujer sin Piano
Assisti ao filme A Mulher sem Piano no Festival do Rio deste ano do diretor espanhol Javier Rebollo produzido em 2009 e achei algumas passagens bem interessantes e instigantes, recheado de citações e originalidade que, para não passar em branco ou cair no esquecimento, resolvi registrar aqui.

A estranheza começa pelo título A Mulher sem Piano (?), penso que há duas possibilidades de entendimento:

1º - Pode ser uma expressão idiomática, daí somente o nativo dessa nação para explicar o seu significado; 2º - A outra possibilidade  seria interpretando a história da própria  protagonista A MULHER do título e a razão dela não possuir um instrumento musical desse porte: imenso e pesado, sendo necessário mais de uma pessoa para transportá-lo. O que pode representar essa figura de linguagem? O árduo trabalho de se Carregar um piano nas costas ou a outra expressão Matar um leão por dia, seria a luta pela sobrevivência nessa selva, refere-se a todo e qualquer sacrifício diário de todo mortal, a luta constante para resolver os problemas, a cruz de cada um,  o fardo, incessante da labuta e dos afazeres por mais simples que seja.

Conta a história de Rosa (Carmen Machi), casada, independente, dona de seu próprio negócio, um filho casado de uns trinta anos. A vida de Rosa digamos, é um mar de rosas pelo fato de ser uma eterna rotina: vive para a casa, o trabalho e para o marido. Só que a sua vida tornou-se reprise do filme de sua própria história enfadonho, roteiro enjoado que perdura por trinta anos. Pela sinopse, não chamaria a atenção nem do cinéfilo eclético, pois a princípio parece idiota. A rotina de uma dona-de-casa, a quem interessaria? Só que a sinopse às vezes engana. Este filme, garanto, tem altas doses de originalidade.

A primeira cena, apresentação das personagens, acontece dentro do carro de seu marido e quase não há diálogo, ou melhor, depois de trinta anos de casamento, já não existe comunicação verbal  muito menos contato físico. Eles despedem-se friamente e cada um segue o seu rumo.

A outra locação é a residência do casal, onde Rosa, mulher de meia idade, comum, realiza sua dupla jornada, seus afazeres domésticos, cuidar do marido, da casa, lavar, passar cozinhar, preparar o café, fazer faxina, atender às suas clientes que funciona em um recinto da sua própria residência, uma clínica de tratamento de beleza, jantar, assistir a um pouco de televisão e por fim dormir. A sua vida é uma eterna rotina. Com o marido não há mais diálogo. Às vezes, ela em sua intimidade pratica o tal ‘amor solitário’. Falam somente o básico. Agem como se fossem dois estranhos vivendo sob o mesmo teto.   A história tem duração não mais que um dia. Nada de novo acontece na vida dessa mulher sem piano que já não sorri para a vida, e nem se acha uma pessoa interessante. A mesmice é sua companheira inseparável.  

Após se despedir do marido, Rosa vai aos correios para retirar uma encomenda. Entrega à funcionária o aviso de retirada juntamente com seu documento de identidade, e a funcionária dos correios a faz assinar o papel de recebimento da mesma, e volta com um pacote prontamente para lhe entregar. Confere a assinatura com a da identidade e, depois de examiná-lo cuidadosamente, diz que é impossível lhe entregar o pacote porque o seu RG está já há três anos vencido. Rosa fica incrédula pelo que acaba de ouvir e retruca dizendo tratar-se da própria, para que conferisse novamente a foto com ela e de que já havia assinado a guia de recebimento. A funcionária séria e secamente lhe responde que não poderá lhe entregar e pega o pacote e leva-o de volta para guardar. Rosa fica pensativa e sem entender. Nada mais a fazer volta para casa desanimada sem a sua encomenda.

E aí, querido expectador? Você não gostaria de saber o conteúdo desse pacote, assim como eu? Fiquei curiosa, já que o mesmo não nos foi revelado. O que será que Rosa queria a todo custo retirar nesse dia? O que ela comprou?  Chegou a perguntar até que horas era o atendimento nesse estabelecimento.  Mas quem tem a imaginação fértil... Rosa volta para casa arrasada... cuida do almoço da faxina, vai ao seu consultório anexo ao lar, o telefone toca, vai atender, o interlocutor é um velho conhecido nosso, o vendedor  telemarketing, a chatice rotineira descartável. Rosa, sem piano, sem pena, sem plano sem pestanejar, desligou.  A Rosa definhava, morria a cada dia, cansada, apática, da eterna repetição, da rotina, nem as ligações ao marido era novidade. Resolve ligar infinitamente nesse dia, também ao filho.

Outra coisa instigante que acontece na locação é um quadro na parede, uma pintura pendurada sobre a cabeceira de seu aposento, que chama muito a atenção e instiga nossa imaginação por ser uma pintura incomum, sombria, escura, e principalmente para um quarto do casal, representando um caçador a cavalo, um lobo morto por ele e ainda há  três vivos, os rodeando, mas tem apenas duas flechas e mais alguns cães. O marido ao se levantar sempre olhava o quadro; já Rosa, como parecia não gostar, resolveu retirá-lo de cena, e o guardou em algum canto da casa.

A noite cai. O marido não janta. A mulher olha a comida que preparou com carinho e ninguém a tocou, indo tudo para o lixo.  Antes de irem dormir assistem juntos a um pouco de televisão que nada tem de interessante; ela faz um passeio pelos canais procurando algo, eles agem como dois estranhos, um mantendo a distância física e emocional do outro, o único som que se ouve é o que vem do aparelho. Até que ele resolve ir para a cama e ela fica um pouco mais. Rosa desliga  a tevê, vai ao banheiro, se arruma coloca uma peruca talvez na tentativa de se tornar naquele momento uma outra pessoa, pega uma mala e sem avisar o companheiro, parte. Qual seria o objetivo? Fugir daquela situação? Começar de novo? Durante bastante tempo ela vaga pelas ruas de Madrid. Vai para a rodoviária, dirige-se a um guichê a fim de comprar uma passagem, sem destino. Em vão. É informada pelo funcionário que acabou de fechar e que só reabrirá no dia seguinte às sete da matina. Desanimada, ela vai procurar um canto para descansar. Observa as pessoas ao redor. Faz algumas ligações, mas do outro lado da linha ninguém atende. Observa atentamente um rapaz que está sentado a sua frente e é também observada por ele. Um celular toca. É do rapaz, mas ela pensa que é seu porque tem o mesmo toque. Eles começam a conversar a partir daí, falando da mesma música dos seus respectivos aparelhos. Surge um affair ali. O rapaz, Rdek conta que é polonês fugitivo e que deseja retornar para a sua terra natal para pagar uma dívida e que está na Espanha a trabalho, e que já juntou dinheiro suficiente para isso; somente depois ela descobre que ele é procurado pela polícia polonesa, enfim, uma situação insólita vivida por ela e pelo da poltrona testemunhando essa condição inesperada vivida por ela. Ela mesma não sabia direito o que estava acontecendo. Sabia que deveria sair dali, tentar fazer alguma coisa, ir em busca de felicidade.

Ela dá uma saída para fumar porque dentro do saguão é proibido. Lá fora é confundida com prostituta, acaba fazendo amizade com uma e com outras pessoas. Volta ao saguão o ambiente bem movimentado, gente dormindo pelos cantos, e o guarda local despejando-os de lá.   A mulher sem piano percorre por diversos cantos de Madrid pela madrugada afora, vive diversas situações insólitas. Até que encontra o seu conhecido polonês Rdek, caído no meio da rua, ela o acode, e ambos saem para um restaurante e entram para comer. O novo casal vive um dia incrível de descobertas devido a momentos difíceis que ambos atravessam. Eles seguem a madrugada toda em fuga.  Até que resolvem pernoitar num hotel.

No salão do hotel tem um piano e Rosa ao passar por ele, dedilha alguma coisa. Aleluia! Por um instante daquele dia peculiar Rosa é A MULHER COM PIANO!

Lá na intimidade desse quarto de hotel, Rosa deita-se no divã e conta toda a sua vida para seu novo amigo polonês que ouve atentamente. Nesse instante ele ouve com dupla atenção a história do quadro que ela lhe conta, que o retirou de seu quarto e encostou no porão por não entender e não gostar dele. 

Rdek fica alguns minutos pensativo, e depois dá maravilhosamente a sua interpretação sobra a obra de arte, qual a sua mensagem e o que essa pintura representa. Para mim foi o ponto culminante do filme.  A explicação fantástica!  A mulher sem piano e o forasteiro retornam à rodoviária com a intenção de partirem para à Polônia. Ela se dirige a um guichê e compra duas passagens. Ao retornar ao encontro de Rdek, Rosa nota que dois policiais o abordam e o levam dali.

Desanimada, a mulher, não tem outra opção, senão voltar para o seu lar.

Ao chegar a casa já pela manhã, chega a ser cômico, o marido se levantando e ela indo para a cama.  A rotina novamente impera: mesa posta, marido saindo para trabalhar, casal sem diálogo, ela a volta com seus afazeres domésticos, até que olha para a parede vazia, sem o quadro, sai e volta com ele e o repõe no seu devido lugar de origem de onde nunca deveria ter saído.

Agora, com ou sem piano, Rosa sabe que pode dar um novo rumo à sua vida. O telefone toca, é o seu filho no outro lado da linha. E a vida segue... todos os dias como uma folha em branco que deve ser preenchida. Cada um é ator ou protagonista de sua própria história... com ou sem piano.

Parabéns aos roteiristas!

Karenina Rostov
*
Sinopse

Rosa é dona de casa e vive com o marido em Madrid. Prestes a entrar na menopausa, ela não tem amigos nem vida social, e seu maior prazer é ver um prato fumegante de comida ser servido com admirável pontualidade na hora das refeições. Tendo vivido toda sua vida em função da família, não está nada satisfeita consigo: não se acha bonita nem gosta de seu cabelo. Mas, num dia desses, decide escapar de sue mundo e viver apenas uma noite diferente. Concha de Prata de Melhor Diretor no Festival de San Sebastián 2009.

Ficha Técnica

Título: La Mujer sin Piano
Diretor: Javier Rebollo
Roteiristas: Lola Mayo, Javier Rebollo
Elenco: Carmen Machi, Jan Budar, Pep Ricart, Nadia Santiago
Ano de Produção: 2009
País: Espanha / França
Duração: 95 



GPS

Boa viagem!








quinta-feira, 11 de novembro de 2010

En el trabajo (6)

Alguém tem gelo seco?

Essa é a pergunta mais frequente por essas bandas. Mas afinal o que é gelo seco? Qual é a sua composição e para que serve?  Você com certeza estudou isso em Química e deve ter esquecido. Então está na hora da revisão porque eu também me esqueci e fui à pesquisa. :)
 
Qual é a composição do gelo seco?

O gelo seco é o dióxido de carbono (CO2, gás carbônico) puro, na forma sólida. O gás carbônico tem capacidade de passar do estado sólido direto para o gasoso, sem passar pelo líquido. Por isso, é sempre seco. O gelo seco é obtido comprimindo-se o CO2 gasoso a uma pressão de 5 atm e resfriando-o a -5 oC. A seguir, a pressão é rapidamente diminuída, causando uma queda na temperatura de até -80 oC.


terça-feira, 9 de novembro de 2010

Home

Foto: E.B.

Tirar os sapatos dentro de casa é da cultura alemã. E quando a ideia é interessante temos mais é que copiá-la. Ganhou uma uma adepta por essas bandas de cá. 

Aqui fique à vontade,  calçado, de chinelos ou descalço, você escolhe. Sou chata, mas nem tanto. Toquei nesse assunto só porque por acaso encontrei  quem pensa também assim em uma exposição que está acontecendo na Casa França-Brasil, RJ. Passe lá e deleite-se!  


 

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Mais uma do ENEM




Uso de relógio e lápis é proibido no ENEM 2010.

O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais - INEP proibiu neste exame praticamente tudo: lápis, borracha, apontador e até relógio! Mas o relógio não é necessário para se controlar o tempo gasto em cada questão?  Pode somente caneta esferográfica de tinta PRETA.  Deve estar dizendo: "Se vira nos trinta, meu!"

O cúmulo do absurdo! Qualquer dia o ENEM será chamado de Zorra Total. Coitado do candidato...

sábado, 6 de novembro de 2010

PRÉ-conceito...

OFF - Nos bastidores da polêmica

Manuel Bandeira era racista? Há algum tempo atrás tive sérios problemas em uma das minhas aulas de interpretação de texto quando escolhi o poema IRENE NO CÉU de Manuel Bandeira. Alguns alunos interpretaram, SEGUNDO O TEXTO, que Irene pela cor de sua pele não poderia ser uma pessoa boa, ela aqui seria exceção e que negros são pessoas ruins.

Até explicar aos alunos que alhos não são bugalhos, e que  tomada de porco não é focinho, deu trabalho...
 

Eis o poema de sete versos livres.

Irene no Céu
Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor.
Imagino Irene entrando no céu:
- Licença, meu branco!
E São Pedro bonachão:
Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.
Manuel Bandeira

No poema o autor faz uma referência a Irene entrando no céu, o que simboliza que era uma pessoa de boa índole. Também demonstra que no céu, a cor de Irene não importa, o que importa é que Irene foi boa e que merece espaço no céu, pois no paraíso não há discriminação. 


E Monteiro Lobato era racista?

Foi manchete de diversos jornais esta semana por causa de um dos clássicos da literatura infantil de Monteiro Lobato, o Caçadas de Pedrinho, e seria banido das escolas públicas do país por conter algumas frases consideradas preconceituosas pelo Conselho Nacional de Educação (CEN). O ministro da Educação Fernando Haddad, teve que intervir.

Segundo um professor da Universidade de Brasília há preconceito racial contra a personagem Tia Anastácia, a empregada negra do Sítio do Pica-Pau Amarelo. Um trecho diz que Tia Anastácia “tem carne preta”. Em outra “que trepou que nem uma macaca de carvão pelo mastro”.

Em resumo, nos dias atuais tudo é visto como questão de preconceito, e motivo para processos. E quando não é encontrando facilmente, fazem questão de revirar papéis antigos  e amarelados. A  literatura está recheada delas; vide o exemplo  no poema de Manuel Bandeira. Agora já são dois literatos, daqui a pouco será a vez de Machado de Assis, que, apesar de ser mulato, quase não há registro da palavra NEGRO em seus textos, porque o burburinho que se ouve em relação a esse fato é que ele renega a sua própria condição racial. O povo que tem tempo adora brincar com fogo. E como dizia meu avô, filósofo de botequim: "Quem mexe com fogo, faz xixi na cama".
K.R.


sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Nunca te vi...

Era uma vez...

Uma mulher alegre, divertida e curiosa, com  ânsia  maior de viver e de aprender e tinha como lazer e entretenimento pesquisar e conversar sobre literatura e cinema nas rodas de leitura na net. Esta é a história de Annia, seu pseudônimo. Ela gostava de navegar pelo mundo virtual e entrar de vez em quando na   sala de bate-papo de Literatura ou de Cinema. Lá, acabou conhecendo alguém especial que adorava escrever e tornaram-se amigos virtuais. Talvez um pouco mais que amizade, um sentimento especial e inexplicável entre ambos e acabaram se correspondendo por longos sete anos. Trocaram muitos e-mails e presentes. A relação entre ambos não passou disso. 

Quando resolveram sair do virtual e marcar um encontro no mundo real, o destino pregou-lhes uma peça sem graça, tirando ele definitivamente de cena. Um acidente aéreo não estava nos planos do casal. E o que restou dessa história são boas e lembranças que a navegadora guardará pela eternidade porque não tem como se apagar da memória (talvez do hd formatado?).   

Mesmo não se conhecendo pessoalmente, tudo o que eles viveram foi muito válido; um fez um bem danado ao outro, falando coisas agradáveis e carinhosas. Um gostando do outro ao seu modo. Carinho nunca foi demais. Quem é que não gosta de se sentir amado, correspondido e de ser feliz?

Ficou como uma lição de vida, e ela aconselha aos amigos  a não desistir dos sonhos, não deixar o tempo passar em vão, fazer o que tem que ser feito com amor e carinho e que a vida é efêmera, o tempo passa muito rápido, por isso não é bom adiar os planos, os sonhos; é bom correr atrás deles enquanto há tempo. Portanto, não adie o seu tempo, corra até ele enquanto há tempo, pois talvez amanhã seja tarde, e não chegue.

Conhece alguém apenas no mundo virtual que faz o coração bater mais forte? Que tal marcar um encontro ao vivo e em cores? Diga a essa pessoa o que sente por ela, o quanto ela representa para você, esteja ela onde estiver, aqui ou no Chuí, livre ou não. Não deixe  esse sentimento morrer em vão...

Good luck!

Em problema sem aparente solução
Umas centenas existem e não vemos
Não se acha o que não se procura
Isola-se no advérbio de negação
Como querendo fugir da solução real
Espera inútil por um milagre virtual

Buscar soluções é muito complicado
E aquela varinha mágica de fada
Recurso nas histórias da infância
Não sabemos onde o tempo a escondeu
Aquele singelo objeto e sua magia
Lembra-se onde foi que a guardou?
J.R.
*
Já avisei a fada madrinha que preciso acordar desse sonho
O virtual, é o sonho triste porque
Sabemos que felicidade só existe no real, e
É complicado buscar soluções quando as

Razões do inconsciente não permitem por n motivos
Ou por acomodação ou por se ter consciência de que
Bem somos felizes e não sabemos, cada um no seu canto
E que o resto é o nosso passatempo agradável...
Receber ou enviar mensagens é divertido
Tão bom essa euforia passageira,
O vistual desliga-se por um botão; já o real não se pode desligar...
E.B.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

A Sonata de Kreutzer e Dom Casmurro

Curiosidades Literárias (3)

Duas histórias de traição - A Sonata de Kreutzer e Dom Casmurro

História de traição é assunto bastante abordado e explorado na literatura. No realismo brasileiro e no realismo russo acontecem em dois momentos semelhantes: no romance Dom Casmurro de Machado de Assis e em A Sonata de Kreutzer de Leon Tolstoi. Essas são as duas obras que considero as mais polêmicas de toda história da literatura mundial.
 Dom Casmurro foi publicado em 1899, conta o caso de Bentinho, casado com Capitu e a eterna dúvida sobre a existência do adultério de sua esposa com o seu melhor amigo Escobar, não havendo em nenhum momento algo que comprove isso ficando apenas no campo das suspeitas do marido ciumento. Escrito em primeira pessoa, apresenta apenas a interpretação dos fatos presenciados pelo narrador-personagem que é o próprio esposo  Bentinho. O casal teve um filho chamado Ezequiel, e à medida que o garoto crescia ia ganhando características físicas e os modos de agir do falecido amigo de Casmurro, sob sua ótica. A polêmica em torno desta obra e a eterna dúvida se Capitu realmente traiu ou não o seu marido perdura até os dias atuais,  e nem o leitor tem essa resposta.
A Sonata de Kreutzer de Tolstoi foi publicado em 1889, ou seja, dez anos antes da obra de Machado de Assis, também tratando do delicado tema adúltério, e Tolstói abre sua obra citando o capítulo bíblico 5:13 de Mateus “Eu porém, vos digo: todo aquele que olha para uma mulher com desejo libidinoso já cometeu um adultério com ela  seu coração”.  Esta  novela consiste basicamente num monólogo do protagonista junto ao narrador, e o versículo não somente é citado como surpreendentemente estendido:  “ As palavras no evangelho no sentido de que todo aquele que atenta numa mulher para cobiçá-la, já cometeu adultério com ela, não se refere apenas às mulheres alheias, mas precisamente e sobretudo, a própria esposa”.

Tolstoi coloca aqui todas as situações de atrito de um casal, assim como muitos pensamentos que alguns classificariam como imorais. Retrata questões relativas ao papel do homem e da mulher numa sociedade em mudança, levantando questões universais sobre a moralidade das relações entre homens e as mulheres e os fatores que influenciam comportamentos de cada um desde os simples intintos gerados pela prória educação ou pelas convenções sociais em vigor.

A novela Sonata de Kreutzer é basicamente um diálogo dentro de um trem, entre um protagonista e o narrador, mas que poderia se encaixar muito bem como um monólogo, pois o narrador pouco interfere no discurso. Por diversas vezes o protagonista reforça a idéia de que a mulher deve manter-se incorruptível, "considerar a condição de virgem como a mais elevada", mesmo que isso culmine com a extinção da raça humana, fato considerado pelo narrador como inevitável, tanto pelos estudos religiosos quanto pelos científicos. É um relato amargo sobre como os relacionamentos entre homem e mulher vão desmoronando: brigas, traições e intolerância. "Mas, em nossos dias, o matrimônio não passa de um embuste". Descreve com desenvoltura o desgaste dos relacionamentos no decorrer do tempo: "Surgiam choques e expressões de ódio por causa do café, da toalha de mesa, assuntos que não podiam ter nenhuma importância, quer para um quer para o outro. Em mim, pelo menos, fervia frequentemente um ódio terrível a ela! Olhava às vezes como ela servia o chá, balançava a perna ou levava a colher à boca, como absorvia o líquido, fazendo ruído e odiava-a justamente por isto, como se fosse a pior das ações".

Chega a classificar todo homem como devasso e toda mulher como prostituta: "Assim como aquelas (as prostitutas) aplicam todos os seus recursos para atrair os homens, fazem estas também. Nenhuma diferença. Numa distinção rigorosa, deve-se apenas dizer que as prostituas a curto prazo são geralmente desprezadas, e as prostitutas a prazo longo, respeitadas".
Do mesmo modo que na célebre obra de Machadiana, o leitor de A Sonata a Kreutzer também ficará intrigado se a esposa de Pózdnichev o traiu o não. O marido ciumento, em certos trechos da narrativa, narra os fatos como se estivesse alucinado, isso de certo modo, se iguala as escalas do piano e violino da peça de Beethoven.

A Sonata de Kreutzer de Tolstoi toma o nome de “Sonata n° 9”  (Opus 47) para violino e piano de Beethoven, originalmente dedicada a George Bridgetwer, em 1798. Rodlphe Kreutzer encontra Beethoven, em Viena, sendo-lhe então dedicada aquela mesma Sonata, a qual ficou conhecida pelo nome de “Sonata de Kreutzer”, embora pareça que o afamado violinista nunca a tocou, é considerada a mais famosa peça escrita para estes dois instrumentos, onde violino e piano “lutam” corpo a corpo.

E Capitu, traiu ou não?

A possível infidelidade da esposa de Bentinho mexe com a cabeça dos leitores. Machado de Assis trabalha constantemente com a ambigüidade. Por mais que tentem provar que Capitu foi adúltera ou não, sendo impossível uma resposta definitiva para essa questão. José Bento, como narrador-personagem, elimina a possibilidade de Capitu se defender da acusação de ser uma adúltera, uma infiel. Uma parte da sua narrativa ele comenta que sua memória devido ao tempo que os fatos ocorreram é falha. Conclui-se que o discurso de Dom Casmurro é contraditório, já que ele alega essa deficiência e ao mesmo tempo diz ao leitor que está falando a verdade.

 Os olhos de Capitu: Bento, para convencer o leitor que de fato, foi vítima de traição, descreve e insiste, desde o início da narrativa, o olhar dissimulado e oblíquo de Capitu, que segundo José Dias assemelharam-se a de uma cigana. Ora, sabemos que os ciganos, no imaginário popular, são vistos como pessoas ardilosas, traiçoeiras. A todo momento   Bento repete isso para o leitor e narra fatos que a jovem, ao encontrar-se em situações embaraçosas, recorre à simulação.

- A mania de Ezequiel de imitar as pessoas é o argumento que Bento usa para provar que o menino não era o seu filho. Entretanto, os outros familiares não compartilham da mesma opinião, já que o menino imita todos e não somente Escobar.
Por isso admiro a genialidade de Leon Tolstoi e Machado de Assis. Duas obras fundamentais que não devem faltar em nossa biblioteca.

Machado de Assis deve ter se inspirado nesta obra de Tolstoi para escrever a sua mais polêmica obra.

Recomendo esses dois livros para todos que gostam de uma boa e instigante literatura.
Karenina Rostov

domingo, 31 de outubro de 2010

Pamonha


 Depois do resultado das eleições presidenciais lembrei-me deste conto maravilhoso de Tchekhov, não sei bem por que...se alguém souber, por favor, me fale...
"É fácil ser forte neste mundo!"

PAMONHA
Convidei há dias para o meu escritório a governanta de meus filhos, Iúlia Vassílievna. Era preciso acertar as contas.
- Sente-se, Iúlia Vassílievna! - disse - Vamos fazer as contas. Com certeza, está precisando de dinheiro e a senhora‚ tão cerimoniosa que não pede sozinha... Bem... ficou ajustado entre nós que seriam trinta rublos por mês...
- Quarenta...
- Não, Trinta... Eu tenho anotado... Sempre paguei trinta rublos às governantas...Bem, a senhora residiu aqui durante dois meses...
- Dois meses e cinco dias...
- Dois meses exatos... Anotei assim. Quer dizer que tem a receber sessenta rublos... Descontando nove domingos... a senhora, realmente, não deu aula ao Kólia nos domingos, mas apenas passeou com ele... E mais três feriados...
Iúlia Vassílievna ficou vermelha e pôs-se a puxar uma franja do vestido, mas... não disse palavra!...
- Três feriados... quer dizer que temos a descontar doze rublos... Kólia esteve doente quatro dias e, por isso, não estudou... A senhora, então, deu aula apenas a Vária... Durante três dias, a senhora teve dor de dente e minha mulher dispensou-a das aulas da tarde... Doze e sete são dezenove. Descontando... ficam... hum... quarenta e um rublos... Certo?
O olho esquerdo de Iúlia Vassílievna ficou congestionado e nublou-se. Começou a tremer-lhe o queixo. Tossiu nervosa, assoou-se, mas... sem dizer palavra!
- Na noite de Ano Bom, a senhora quebrou uma xícara de chá e um pires. São menos dois rublos... A xícara é uma relíquia, custa mais caro, mas... vá lá, Deus que a perdoe! Nossas coisas já se têm estragado em tantas ocasiões! Depois, devido a uma falta de atenção por parte da senhora, Kólia trepou numa árvore e rasgou o paletozinho... São menos dez... A arrumadeira, em consequência igualmente de uma distração sua, roubou os sapatos de Vária. A senhora deve cuidar de tudo. Está  contratada e recebe ordenado. Quer dizer que devemos tirar mais cinco... No dia dez de janeiro, a senhora levou emprestados de mim dez rublos...
- Eu não levei! - murmurou Iúlia Vassílievna.
- Mas está anotado aqui!
- Está bem...seja.
- De quarenta e um, tira-se vinte e sete, sobram quatorze...
Os olhos da governanta encheram-se de lágrimas... O suor apareceu sobre seu narizinho comprido e gracioso. Pobre menina!
- Eu só levei uma vez - disse ela, a voz trêmula. - Levei três rublos de sua senhora... Não levei mais nada...
- E agora? Imagine, eu nem anotei isso! Tirando três de quatorze, fica onze... Aqui está o seu dinheiro, minha cara! Três... tres, três... um e um... Queira receber!
Dei-lhe os onze rublos... ela os tomou e enfiou-os no bolso, com dedos trêmulos.
- Merci - murmurou.
Levantei-me de um salto e pus-me a andar pelo quarto. O furor apossou-se de mim.
- Mas, por que este merci? - perguntei.
- Pelo dinheiro...
- Mas eu a assaltei, diabos, eu lhe roubei dinheiro! Por que
merci?
- Noutras casas, cheguei a não receber nada...
- Não recebeu nada! Compreende-se! Eu caçoei da senhora, dei-lhe uma lição cruel... Vou lhe pagar todos os seus oitenta rublos! Estão preparados para a senhora, neste envelope! Mas, como é que se pode ser moleirona assim? Porque não protesta? Por que fica quieta? Pensa que, neste mundo, pode-se não ser audacioso? Pensa que se pode ser tão pamonha?
Ela esboçou um sorriso azedo e eu li em seu rosto: "Pode-se sim!".
Pedi-lhe perdão por aquela lição cruel e dei-lhe, para seu grande espanto, os oitenta rublos. Pôs-se a balbuciar merci com timidez e saiu do escritório. Acompanhei-a com o olhar e pensei:
- É fácil ser forte neste mundo!
Anton Tchekhov (1883)

Manifesto em Defesa da Democracia

Por Helio Bicudo - Membro e fundador do PT.

http://www.youtube.com/watch?v=6D6Ocm9xbgo&feature=email

sábado, 30 de outubro de 2010

Cineminha Grátis

Festival Internacional de Curtas do Rio de Janeiro - Curta Cinema 2010

de 28 de outubro a 7 de novembro - Odeon Petrobras - entrada franca

http://www.curtacinema.com.br

Como costumo dizer: Huuuuuuummmmmm, que dica interessante!

Duas vezes, além de curtir curta, é grátis. Vai lá!

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Créditos Interessantes (5)

SEVEN - Se7en (Se7en) – 1995
*
Para os fãs do suspense, eis uma abertura bem sugestiva. Cinema é a maior diversão, não acha?

*

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Carpe diem!

E por falar em cinema...

Eis uma imagem belíssima do filme Sociedade dos Poetas Mortos que considero inteligente e original. O objetivo do professor de literatura dando aos alunos outra possibilidade de exergar o mundo, de uma nova leitura, sob outro ângulo e outra ótica.
"O Captain! My Captain!"

Carpe diem!

-Vocês estão vendo estas fotos meninos?

-Os jovens que estão nesses quadros, planejam revolucionar o mundo e transformar suas vidas em algo magnífico. Isso foi há 70 anos. Agora estão todos mortos. Quantos tiveram uma vida realmente feliz?

Quantos realizaram seus sonhos? Aí o professor inclina para o grupo e murmura para que todos o ouçam:
- Aproveitem o seu dia. Vivam o presente.

Confiança é saber que somos limitados, que não podemos adivinhar o que está por vir que jamais controlaremos todas as “possibilidades” e que nossa única saída é viver intensamente a realidade, seja boa ou ruim.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Mensagem para mim...

No dia de hoje, by ORKUT:

Sorte de hoje: Agora é a hora de tentar algo novo.

Nada de novo no FRONT. Por enquanto...

terça-feira, 26 de outubro de 2010

A difícil arte de ganhar um catálogo

Mostra John Ford em andamento no CCBB.





Para quem está acompanhando a mostra em homenagem a  John Ford no CCBB do RJ,  já deve saber as fases para se conseguir o tão disputado  catálogo. As etapas são as mesmas de mostras anteriores: 1° Comprar o Cinepasse; 2° Pegar a senha meia hora antes da sessão; 3° assistir a cinco filmes e carimbar o passaporte em cada uma delas; 4° apresentar o cinepasse com os cinco carimbos no balcão de atendimento para finalmente  receber o catálogo.  Detalhe: o curador disse que são apenas 280 exemplares.

Agora restam 279.



segunda-feira, 25 de outubro de 2010

sábado, 23 de outubro de 2010

Cristo Redentor, maravilhoso!

Projeções do abraço do Cristo Redentor no Rio de Janeiro, de Fernando Salis (registro 19/10/2010)


*
Cristo Redentor, a terceira maravilha do mundo moderno ganhou roupagem nova e estilizada nesta semana, e está assim, com esses efeitos cinematográficos para inaugurar a campanha CARINHO DE VERDADE, de combate a exploração sexual de crianças. Tudo projetado no corpo do monumento que virou uma verdadeira tela de cinema de alta definição.

A propósito, vale relembrar quais são as sete maravilhas do mundo antigo e as sete maravilhas do mundo moderno.

As Sete Maravilhas do mundo antigo, são:

1 - Jardins Suspensos da Babilônia
2 - Pirâmides de Gizé
3 - Estátua de Zeus
4 - Templo de Ártemis
5 - Mausoléu de Halicarnasso
6 - Colosso de Rodes
7 - Farol de Alexandria

E eis as Sete Maravilhas do mundo moderno:

1 - Grande Muralha da China
2 -  Petra, na Jordânia
3 - Cristo Redentor, no Brasil
4 - Machu Picchu, no Peru
5 - Chichén Itzá, no Peru
6 - Coliseu, na Itália
7 - Taj Mahal, na Índia


RIO DE JANEIRO,

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Coral de Tóquio

Coral de Tóquio (Tokyo no Korasu, Japão 1931)

Diretor: Yasujiro Ozu
Escolhi dia desses aleatoriamente para rever o filme O Homem que Sabia Demais de Hitchcock.  Uma cena de uma das locações deste filme me remeteu ao cineasta Yasujiro Ozu. No desfecho, Hitch faz um breve passeio com a câmera, mostrando detalhes dos interiores da mansão, portas, escadas, mobília, corredores, lustres, até chegar ao quarto onde estava preso o filho seqüestrado do casal americano, exatamente como acontece ao estilo de Ozu filmar. Seria uma homenagem?  
 
Conheço meia dúzia de filmes de Ozu dando perfeitamente para se concluir que seu estilo é inconfundível, reconhece-se como uma marca registrada pela poesia existente na fotografia, pelo assunto e costumes do cotidiano, temas triviais geralmente familiares, pequenos dramas, peculiaridades da cultura oriental, relações conflituosas  entre tradição e modernidade. As imagens iniciais mostrando paisagens, crianças brincando, pessoas transitando pelas ruas, animais e residências  transmitem paz e serenidade. Ele trata com carinho e especial sentimento os assuntos rotineiros e banais, o público se identificando constantemente pelos temas declinados, desde amor não correspondido, desemprego, saúde, miséria, educação, religião, família, até assuntos polêmicos como suicídio.


Além de contar uma boa história, por mais simples ou rotineira que seja, Ozu nos presenteia com belas figuras de retórica e de estilo, principalmente a prosopopéia, personificando em belas imagens que dialogam frequentemente com o público,  não se esquecendo de nenhum detalhe, tudo tem o seu valor, desde a chaleira e seu vapor  num canto da sala, como   também os corredores, as  paredes, escadas, os chinelos e os cabides  na entrada, a mesinha no centro da sala onde a família e os amigos  se reúnem para uma habitual refeição e longas conversas,  nada escapando ao olhar atento e cuidadoso de minúcias do diretor.

Fiquei emocionada e feliz pela oportunidade de ter assistido ao CORAL DE TÓQUIO, esse filme mudo, em preto e branco produzido em 1931, uma sessão especial assim, que eu me lembre, só vi no MAM (Museu de Arte Moderna), o clássico O Nascimento de uma Nação de D.W. Griffth com acompanhamento improvisado ao piano, e em outra ocasião um filme russo no Festival do Rio com tradução simultânea, os atores dublando ao vivo, foi um momento mágico e inesquecível. 

A história de Coral de Tóquio começa dentro de um quartel onde um professor dá instruções aos subalternos, pedindo que marchem, verificando postura e obediência a ele como mestre, seus súditos  fazendo tudo o que era pedido. O prólogo é uma comédia pastelão, ninguém no cinema consegue segurar o riso, principalmente quando estão em cena dois soldados trapalhões, sendo motivo de gargalhadas dos outros colegas recrutas e pelo fato de o professor mal conseguir manter a ordem e a disciplina do batalhão. Comentaram que Ozu era fã de Chaplin.

A história dá um salto, mostrando aquele que foi o soldado trapalhão, hoje um pai de família com três filhos: O mais velho era um menino aparentando ter uns seis anos; depois uma menina de cinco anos e um bebê.   

Okajima, o soldado hoje é um funcionário de uma empresa, e ele encontra-se em seu ofício  ao lado de seus colegas de trabalho. Todos estão felizes porque é o dia do pagamento.  O filho dele sabendo disso pediu-lhe de presente uma bicicleta, e o pai prometeu que lhe compraria. Acontece que nesse dia o patrão resolveu demitir um funcionário e este pai de família, para defender o colega foi falar com o patrão que acabou também o despedindo.  Tempos difíceis no Japão, em plena depressão, e agora o jovem pai de família ficou desempregado. O que ele poderia fazer? Tinha formação superior, era professor, mesmo assim emprego não havia, era artigo de luxo, e Okajima começou a enfrentar dificuldades. Certo dia ele encontrou na cidade o seu ex-professor que também estava desempregado e ele lhe fez uma proposta. O professor estava abrindo com a esposa um restaurante e precisava de um ajudante para fazer propaganda, distribuindo panfletos nas ruas de Tóquio para conseguir clientes. Ele imediatamente topou. Só que não contou nada para a sua orgulhosa esposa porque não entenderia nem aceitaria ver seu marido com a formação que tinha, trabalhando como entregador de papel pelas ruas.
Okajima chegando em casa era só cobranças: o filho pedindo a bicicleta, a esposa, dinheiro para fazer compras, o bebê  chorando e a menina adoeceu, precisando de dinheiro para ir ao médico e comprar medicamentos. 

Um dia ela vai à cidade com os filhos e presencia a seguinte cena: o marido marchando pelas ruas, ao lado do seu ex-professor, carregando uma bandeira e distribuindo panfletos, a propaganda do restaurante. Em casa, foi um Deus nos acuda. A esposa não aceitou de jeito nenhum que ele continuasse naquela situação que considerava constrangedora para a família. Foi trabalhoso e penoso para ele convencê-la que era necessário porque ele não tinha outra escolha.   É claro que para Okajima era apenas uma situação provisória até ele conseguir algo melhor.  O ex-professor gostava muito dele e tinha muitos contatos de autoridades e pessoas influentes, e o ajudou sigilosamente enviando o curriculum dele para o ministro da educação indicando-o para o cargo de professor de literatura na universidade.  

O dia da inauguração do restaurante, o seu ex-professor era ‘só sorrisos’, porque o local lotou; muita gente foi conhecer o novo point da cidade e foi o maior sucesso.

Nesse mesmo dia chega uma correspondência para o seu ex-professor. Adivinha o que era? A resposta do governo aceitando a indicação do professor Okajima para lecionar na universidade. 


 Cinema também é uma escola, e neste filme aprendi muita coisa nova e agora compartilho aqui. Esta delicada comédia mostrando o cotidiano de Okajima um pai família em plena depressão e que acabou sendo despedido exemplifica o estilo de filmar e dirigir de Ozu e peculiaridades de seus primeiros filmes. 

Coral de Tóquio é uma verdadeira obra de arte. Sem som e sem  trilha sonora, como os primeiros filmes mudos e em preto e branco que ainda eram considerados uma curiosidade aos japoneses que diziam ser “coisa de ocidental”, e nesta sessão especial que tive a oportunidade de assistir e aprender coisas do mundo oriental que desconhecia,  foi apresentado ao público a presença de uma narradora no idioma japonês, como se o filme fosse estrangeiro. Esse tipo de “tradução” ao vivo recebe o nome de Benshi que deriva de Ben (narração) e Shi (mestre, samurai), que servia para complementar o entendimento da obra cinematográfica.  Formidável a tradução simultânea, ao vivo e em cores, com músicos e seus instrumentos orientais.  Os benshis eram mais reverenciados que as próprias estrelas dos filmes. 
O benshi continuou sendo uma parte muito importante na exibição de filmes até 1937.  Fora do Japão o espanto nem era tanto pela manutenção do benshi. E sim porque frequentemente estes narradores tinham liberdade de acrescentar sua própria interpretação e dava explicação pessoal para cenas não filmadas, seu entendimento e impressão sobre o filme. Não necessariamente a versão pretendida do diretor.

A narradora Ângela Nagai é ótima, fazia o público compreender um pouco mais o filme com um toque de humor imitando o choro do bebê, por exemplo,  as brigas entre os irmãos por coisas banais, expressões fisionômicas etc, foi sensacional, e ilustrando constantemente com informações sobre o país, sobre a situação sócio-econômico-cultural, desemprego, família  entre outros temas; e os músicos Felipe Fiani Veiga (tocando o instrumento okoto) e Tamie Kitahara (tocando o instrumento shamisen) fazendo o espetáculo mais bonito que a sétima arte já é. Tudo maravilhoso. Quem tiver oportunidade de ver um show como esse aconselho  não perder. Assista!

Para quem achou estranho num primeiro momento, a técnica Benshi era muito usada nos primórdios do cinema no Japão, quando assistir a um filme era pouco para os espectadores, e os narradores eram, na verdade, considerados as grandes estrelas como os próprios atores. O filme só começava após uma palestra do Benshi; antes da narração dava-se explicação sobre o tema. No Japão existe até hoje sessões com benshi que também eram conhecidos como katsuben – abreviação de katsudoo shahin benshi (narradores de imagens em ação).

Fica aqui a dica para uma sessão de cinema divertida e leve. Esplendido!
Karenina Rostov
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Elenco: Tokikiko Okada, Emiko Yagumo, Hideo Sugawara, Hideko Takamine, Tasuo Saito, Chouko Iida, Takeshi Sakamoto, Reiko Tani, Kenichi Miyajima, Isamu

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Cidade de Deus


O Jornal britânico The Guardian publicou uma lista com os melhores 25 filmes de ação de todos os tempos e orgulhosamente o nosso Cidade de Deus, do diretor Fernando Meirelles em 2002, está em sexto lugar.

O filme de Meirelles, que recebeu quatro indicações ao Oscar em 2004, divide a lista de filmes de ação com clássicos como Apocalypse Now (1979, do diretor Francis Ford Coppola), em primeiro lugar, Intriga Internacional (1959, de Alfred Hitchcock), em segundo, e Era Uma Vez no Oeste (1968, de Sergio Leone), em terceiro.

Cidade de Deus conquistou o mercado internacional, principalmente por suas imagens fortes e enredo baseado numa história verdadeira. Quem viu pode revê-lo e quem não viu vai conhecer o trailer agora.
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Sinto orgulho do meu colega de faculdade Paulo Lins. Parabéns, querido!