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segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Pamonha (2)


Pamonha (2)

Vem aí o I Congresso Internacional de Estudos Orientais e Eslavos da UFRJ - VI Encontro de Letras Orientais e Eslavas Sob o tema: "Revoltas, Revoluções, Transformações" que acontecerá na Faculdade de Letras - UFRJ, de 24 a 27 de outubro de 2011.

Convidaram-me para apresentação de um trabalho nesse evento, mas ainda estou pensando se devo ou não aceitar. Conversei com alguns conhecidos e professores da área do departamento de Literatura Russa, e falei que se caso aceitasse seria sobre um dos cinco milhões de contos de Anton Tcheckov: "PAMONHA" o qual já apresentei aqui há algum tempo, lembra? Trouxe para cá no período das eleições, assim que saiu o resultado para presidente da República do Brasil, que me deixou, na época, meio chateada, por não concordar e não ter aceitado, e como forma de desabafar, me coloquei na situação da personagem-título dessa história: uma pamonha!

A professora organizadora do congresso, atenciosamente,  argumentou que, de fato esse conto é uma raridade, e que ela mesma, pediu perdão, desconhecia:  “ - Desculpe a ignorância, mas esse conto de Tcheckov, eu não conhecia”.

Penso em fazer uma leitura dramatizada e depois tecer comentários sobre o período e a escola literária deste autor.

Significado de Pamonha

A propósito, a palavra pamonha, no idioma russo é - Дурак -  e significa:
s.m.: bobo, estúpido, tolo, imbecil , fazer-se de bobo, besta, quadrada, palerma, tolo, idiota.
E em nosso idioma tem mais de um significado:
s. f. 1. [Brasil] [Culinária] Bolo, doce ou salgado, feito de milho verde ralado, leite de coco, etc., cozido enrolado em folhas de milho ou de bananeira.
2. [Informal] Que ou aquele que é pouco esperto ou pouco inteligente, indivíduo mole, preguiçoso, pouco desembaraçado, palerma, tolo, imbecil, idiota, inútil.

Seria novamente  coincidência se alguém mais escolhesse entre cem bilhões de escritores pelo mundo todo, justamente este conto russo,  e justamente este autor? Fala sério!
Karenina Rostov


domingo, 31 de outubro de 2010

Pamonha


 Depois do resultado das eleições presidenciais lembrei-me deste conto maravilhoso de Tchekhov, não sei bem por que...se alguém souber, por favor, me fale...
"É fácil ser forte neste mundo!"

PAMONHA
Convidei há dias para o meu escritório a governanta de meus filhos, Iúlia Vassílievna. Era preciso acertar as contas.
- Sente-se, Iúlia Vassílievna! - disse - Vamos fazer as contas. Com certeza, está precisando de dinheiro e a senhora‚ tão cerimoniosa que não pede sozinha... Bem... ficou ajustado entre nós que seriam trinta rublos por mês...
- Quarenta...
- Não, Trinta... Eu tenho anotado... Sempre paguei trinta rublos às governantas...Bem, a senhora residiu aqui durante dois meses...
- Dois meses e cinco dias...
- Dois meses exatos... Anotei assim. Quer dizer que tem a receber sessenta rublos... Descontando nove domingos... a senhora, realmente, não deu aula ao Kólia nos domingos, mas apenas passeou com ele... E mais três feriados...
Iúlia Vassílievna ficou vermelha e pôs-se a puxar uma franja do vestido, mas... não disse palavra!...
- Três feriados... quer dizer que temos a descontar doze rublos... Kólia esteve doente quatro dias e, por isso, não estudou... A senhora, então, deu aula apenas a Vária... Durante três dias, a senhora teve dor de dente e minha mulher dispensou-a das aulas da tarde... Doze e sete são dezenove. Descontando... ficam... hum... quarenta e um rublos... Certo?
O olho esquerdo de Iúlia Vassílievna ficou congestionado e nublou-se. Começou a tremer-lhe o queixo. Tossiu nervosa, assoou-se, mas... sem dizer palavra!
- Na noite de Ano Bom, a senhora quebrou uma xícara de chá e um pires. São menos dois rublos... A xícara é uma relíquia, custa mais caro, mas... vá lá, Deus que a perdoe! Nossas coisas já se têm estragado em tantas ocasiões! Depois, devido a uma falta de atenção por parte da senhora, Kólia trepou numa árvore e rasgou o paletozinho... São menos dez... A arrumadeira, em consequência igualmente de uma distração sua, roubou os sapatos de Vária. A senhora deve cuidar de tudo. Está  contratada e recebe ordenado. Quer dizer que devemos tirar mais cinco... No dia dez de janeiro, a senhora levou emprestados de mim dez rublos...
- Eu não levei! - murmurou Iúlia Vassílievna.
- Mas está anotado aqui!
- Está bem...seja.
- De quarenta e um, tira-se vinte e sete, sobram quatorze...
Os olhos da governanta encheram-se de lágrimas... O suor apareceu sobre seu narizinho comprido e gracioso. Pobre menina!
- Eu só levei uma vez - disse ela, a voz trêmula. - Levei três rublos de sua senhora... Não levei mais nada...
- E agora? Imagine, eu nem anotei isso! Tirando três de quatorze, fica onze... Aqui está o seu dinheiro, minha cara! Três... tres, três... um e um... Queira receber!
Dei-lhe os onze rublos... ela os tomou e enfiou-os no bolso, com dedos trêmulos.
- Merci - murmurou.
Levantei-me de um salto e pus-me a andar pelo quarto. O furor apossou-se de mim.
- Mas, por que este merci? - perguntei.
- Pelo dinheiro...
- Mas eu a assaltei, diabos, eu lhe roubei dinheiro! Por que
merci?
- Noutras casas, cheguei a não receber nada...
- Não recebeu nada! Compreende-se! Eu caçoei da senhora, dei-lhe uma lição cruel... Vou lhe pagar todos os seus oitenta rublos! Estão preparados para a senhora, neste envelope! Mas, como é que se pode ser moleirona assim? Porque não protesta? Por que fica quieta? Pensa que, neste mundo, pode-se não ser audacioso? Pensa que se pode ser tão pamonha?
Ela esboçou um sorriso azedo e eu li em seu rosto: "Pode-se sim!".
Pedi-lhe perdão por aquela lição cruel e dei-lhe, para seu grande espanto, os oitenta rublos. Pôs-se a balbuciar merci com timidez e saiu do escritório. Acompanhei-a com o olhar e pensei:
- É fácil ser forte neste mundo!
Anton Tchekhov (1883)