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sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Uma das Musas do poeta J.G. de Araújo Jorge

Curiosidades Literárias e Musicais (5)

Era Música

(Para leres, ouvindo a "Transfiguração do Amor e Morte, de Tristão e Isolda", de Wagner)

E então soprou um vento de ternura intensa.

E as nuvens se dispersaram, e eu vi que meu coração emergia
como um alto cume de montanha, dourado de sol,
musicado de pássaros e éguas.

Olhava teus olhos, tuas mãos, teus cabelos, teu corpo...
Teu corpo era como um caminho sinuoso por onde saí desesperado
a procurar-te.

E de repente, tomei-te nos braços, afaguei-te a cintura, recolhi-te ao meu peito,
Teu coração inquieto pulsava mais que o córrego das montanhas,
batia asas de pássaro encandeado.

E de repente saímos livres e felizes, como simples animais de Deus
com a direção dos ventos.

Faminto, colhi-te como fruto! Sedento, bebi-te como a água!
Marquei meus dentes em tua carne
e escorreste pela minha boca, pelo meu pescoço, pelo meu peito.
Meus braços foram tuas formas. Minhas mãos te conheceram.
Desmanchei-te os cabelos, e me perdi. Nossas bocas se uniram, e se esqueceram.

Tatearam meus lábios escalando cumes,
devassando vales.

E fiquei em ti, vivo e silencioso, como o sangue nas veias,
como a seiva na raiz.
E desci sobre ti e me entranhei, como a chuva descendo e molhando.
E quando *felamos: era música.

(J. G . de Araujo Jorge - coletânea - "Poemas do Amor Ardente" 1a ed.1961)

*
Preludio e "Liebestod" para Tristão e Isolda

Da ópera "Tristão e Isolda"
Composição: Richard Wagner
Ano:1865

Lenda de um amor trágico entre o cavaleiro Tristão e a princesa Isolda, prometida para o rei, tio de Tristão. Acidentalmente, os dois tomam uma poção mágica e apaixonam-se perdida e irremediavelmente, lançando-se em um romance proibido e impossível. Isolda casa-se com o rei mas mantém o romance com Tristão, que logo é descoberto. Tristão é banido do reino. Ferido em um combate, Tristão pede para chamar Isolda para curá-lo. A esposa de Tristão engana-o dizendo que Isolda não virá. Isolda, chegando depois da morte de Tristão, também morre de tristeza. O Prelúdio de Tristão e Isolda é famoso pelo clima de tensão material e euforia transcendente que desperta, unindo o amor carnal (erótico) e o amor sublime (diria talvez, "divino". Otto Maria Carpeaux refletiu sobre o Prelúdio: "Tristão e Isolda é a transfiguração musical do amor, da morte e do nada, do Nihil no fundo do Universo, que esse mago soube fazer ouvir: as harmonias trágicas das esferas".
*
São três momentos da paixão: O meu amor pelo poeta J.G. de Araújo Jorge, A Linda história de amor de Tristão e Isolda e a Música imponente de Richard Wagner.

J.G., exigente, certa vez pediu para que o seu leitor lesse o poema Era Música com acompanhamento musical de A Transfiguração do Amor e Morte, de Richard Wagner.  A primeira vez que li o pema foi impossível cumprir essa missão porque eu não tinha como conseguir a música. Hoje pude realizar esse pedido, e a conclusão que cheguei é que, de fato, é uma experiência única, inexplicável, sensacional, diferente, jamais vivido algo parecido!

"Por tanto amor, por tanta emoção a vida me fez Assim": Vão dizer que é mais uma pieguice. Mas faça isso que você verá um três em um momentos de magia. Conheça um pouco da bela história de amor entre Tristão e Isolda; sonhe com a maravilhosa poesia jotageniana, e deleite-se com a formidável música desse compositor que inclusive já trouxe um fragmento para cá a fim de facilitar, agora é só usar e abusar!

Seu pedido é uma ordem, majestade!

Sobre a palavra grifada acima, na minha edição está escrito FELAMOS, ao invés de *FALAMOS de edições mais recentes. O que pode ter acontecido? Erro do livro, erro do revisor, erro de impressão, erro de digitação, erro ortográfico (não isso, não!) ou correção do autor? Ou ainda: censura dos editores? (Quem duvidar, me fale, posso escanear a página e postá-la aqui.)

Afinal quem conhece a poesia de J.G., sabe bem que ela é bastante erótica e sensual. Tire suas conclusões, e depois me conte.

Até breve!
E.B.
*

*
Obs.:

O trecho da ópera selecionado acima não corresponde ao sugerido pelo poeta. Aconteceu que na minha busca não consegui localizar. Peço um pouco de paciência da parte de todos e assim que possível farei a troca.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

De Mãos Dadas - Parte II

E voltando ao assunto  poeta J.G.

J.G. de Araújo Jorge escreveu De Mãos Dadas, o  segundo livro com a poetisa Maria Helena que ele prefere chamar de segundo volume. Neste, Maria Helena responde aos poemas do livro dele chamado Espera. Em carta a J.G. ela pediu a ele que este novo livro se mantivesse o título com um pequeno acréscimo: Appassionato. Realmente, neste livro a musa prolonga as notas líricas e passionais de "Espera...." , "A Sós...." e "Harpa Submersa", a tetralogia do Amor. E como já sabem, eles não se conheceram pessoalmente. Um oceano os separavam.


Entretanto, como um maravilhoso arco-íris de belezas e de emoções, suas poesias fazem uma "ponte" , onde os dois se encontram " de mãos dadas" em duetos líricos e num diálogo de fantasias.

E vamos a duas poesias que escolhi dos amantes para que degustem:

Amor fora do Tempo

O tempo - esponja e inverno,
tédio e rotina,
epitáfio e adeus,
irremediável partida sem partidas,
destilaçãos de ausência -

para nós, é teia e amarra,
- fusão.

O tempo é que se ausenta
e à margem dele, restamos eternos,
dois a viverem
num coração.

J.G.

Amor dentro do Tempo

Que importam horas ou momentos?
A ti que importa o Tempo e a mim que importa,
Se hoje somos os líricos rebentos
De uma roseira morta?!

Se tanto nos queremos,
Se eu em ti moro e em mim tu moras,
Vai para além das horas que vivemos
O nosso amor sem horas.
Que faz que o mundo tenha muitas rotas,
Quando o caminho é um, longe de quaisquer vistas?
Se mudamos a mais humana das derrotas
Na mais divina das conquistas?
Se é certo que a alegria nos sobeja
E espedaçamos a neblina
E nos teus olhos tens os meus,
Deixa que o Tempo seja
Tédio e rotina,
Epitáfio e adeus.

De olhos enxutos,
Vivendo cada qual a sua arte
Na fé imensa com que nos amamos,
Pela estrada complexa dos minutos,
A Vida parte,
Mas nós ficamos.
Ficamos em certeza e valimento
Neste esplendor de Sol que nos invade.
Ficamos a jurar cada momento
Que o nosso amor, no coração do Tempo,
Fica a pulsar Eternidade.

M.H.