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segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

A poesia de Anna Akhamátova


Envelope comemorativo com foto da poetisa



O Poeta Álvaro Alves de Faria fala sobre Anna Akhmátova e Patrícia Rizzo interpreta dois poemas da grande poetisa russa que tanto sofreu sob o stalinismo.
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Anna é uma das maiores poetisas russas. Este texto foi-me cedido gentilmente pelo escritor Affonso Romano de Sant' Anna. Caro poeta, grata pelo belo ensaio e pelo presente! Amei!
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AS MUITAS VIDAS DE ANNA AKHAMÁTOVA

Affonso Romano de Sant'Anna(*)

Anna, a Voz da Rússia – Vida e Obra de Anna Akhmátova (Algol Editora) é o produto de uma paixão literária que dura já quatro décadas, surgida quando Lauro Machado Coelho aos dezoito anos adolescia em Belo Horizonte. Mas, sendo obra de "amante", não é coisa de "amador". Anteriormente, Lauro havia publicado Akhmátova: Poesia 1912-1964 (L&PM, 1991), uma antologia daquela que foi qualificada, pela também poeta Marina Tsvietáieva, como "Anna de todas as Rússias". E, recentemente, ele nos deu a reveladora Poesia Soviética (Algol, 2007), cerca de 600 páginas com uma série de poemas de autores desconhecidos do grande público, e por ele traduzidos diretamente do russo.

Anna, a Voz da Rússia é não só uma monumental biografia, mas uma requintada façanha editorial, com a capa e gravuras em preto e branco de Klara Kaiser Mori, um dossiê de fotos sobre a poeta e seu tempo, a partitura de uma composição de Gilberto Mendes sobre um dos poemas de Anna e um CD com a voz da poeta e poemas declamados em português por Beatriz Segal. E, no momento em que este livro está sendo lançado, o compositor Rodolfo Coelho de Souza está terminando a partitura do monodrama Visita Noturna para a Senhora Akhmátova, cujo libreto foi escrito para ele por Lauro. Ocorre assim a confluência do trabalho do Lauro Machado Coelho tradutor com o do crítico e historiador de música, que tem-nos dado uma enciclopédica História da Ópera em vários volumes. Mais do que um livro esta edição é um acontecimento.

VIDAS E SOBREVIDA

Quantas vidas cabem numa vida? Na de Anna Akhmátova, pelo menos três. Há uma primeira Anna, feliz na infância e parte da juventude. É aquela que vivia em Pávloski e depois em Tsárskoie Seló, a "aldeia do tsar", onde o arquiteto italiano Rastrelli erguera, para Catarina a Grande, um esplêndido palácio. Ali, ela passeava nos bosques, visitava a coleção de arte do Museu Alexandre III, assistia a concertos e vivia como uma moça culta e bem educada. Aos 13 anos, descobriu a poesia de Aleksandr Blok, mas quando escreveu seus primeiros versos, o pai advertiu: "Vê se, pelo menos, não envergonha o nome da família".

Não envergonhou. Essa descendente longínqua do clã da "Horda Dourada" do Grande Cã conheceria a glória em vida, e compartilharia sua dramática vida com uma geração de artistas excepcionais como Erenbúrg, Khlébnikov, Maiakóvski, Mandelshtám, Shostakóvitch, Isaac Bábel, Pasternák, Prokófiev, Anna Pávlova, Nijínski, Modigliani. E Iósif Bródski, o Nobel de 1987, cujo talento ela estimulou desde o princípio, foi o encarregado de escolher onde seria sua sepultura, quando ela morreu, em 1965.

Enquanto ia se transformando em um ícone da poesia russa moderna, Anna experimentou, na carne e no espírito, os círculos dantescos do inferno stalinista, acrescidos do inferno hitlerista. Sua vida sofreria uma abrupta transformação: "Eu como um rio,/fui desviada por esses duros tempos./Deram-me uma vida interina./E ela pôs-se a fluir num curso diferente, /passando pela minha outra vida/ e eu já não reconhecia mais as minhas margens."

Assim é que o seu biógrafo brasileiro rastreia pormenorizadamente a trajetória da segunda vida de Anna Akhmátova, desde a eclosão da Revolução de 1917, até a implantação dos "gulags" siberianos, à resistência durante o cerco nazista de Leningrado, ao horror da repressão durante a Guerra Fria até que, a partir de 1956, Khrushtchóv iniciasse a abertura que só se consumaria quarenta anos mais tarde.

Essa é, por consequência, também a Anna de todos os dramas e tragédias. Seu marido, o poeta Gumilióv, foi preso e fuzilado; o filho, Liev, mandado para a Sibéria, enquanto ela era acusada pelos stalinistas de fazer " uma poesia prejudicial e alheia aos interesses do povo" . Expulsa da União de Escritores, ora acometida de tifo, ora vítima de tuberculose, sendo a "tricentésima da fila" para visitar o filho na cadeia, vendo seus amigos escritores se suicidarem e desaparecerem, mesmo assim, durante o cerco hitlerista a Leningrado, ela lia diariamente, na rádio, poemas que ajudavam a manter o ânimo dos resistentes. Poderia ter, como outros, abandonado seu país, mas preferiu resistir: "Não , não foi sob um céu estrangeiro,/ nem ao abrigo de asas estrangeiras – eu estava bem no meio de meu povo,/ lá onde o meu povo infelizmente estava".

Inacreditáveis e aviltantes tempos aqueles em que, "até 1938, 10% da população masculina da URSS foi executada". Tempos em que, por causa da morte de uma personalidade como Serguêi Kírov, 40 mil foram deportados, 400 mil se suicidaram e, só no ano de 1934, houve 6.501 fuzilamentos: "Esta terra russa gosta,/ gosta do gosto de sangue".

Por causa dessas tragédias, introduz-se na literatura russa um personagem que Akhmátova chama de "o viajante aleijado", uma metáfora de todos os destroçados pelo regime comunista e pelas guerras, discursando melancolicamente sobre os sofrimentos do país, como se fosse um irremissível " velho do Restelo" da tradição lusa.

A poesia de Anna está tão pontuada pela morte quanto pelo amor. Em sua vida tempestuosa, ela casou-se várias vezes e teve trocas afetivas e amorosas com Gumilióv, Modigliani, Nikolái Niedobrovô, Borís Anrep, Shilêiko, Luriê, Púnin, Isaiah Berlin.

A terceira vida de Anna Akhmátova começa a surgir com o degelo, após a morte de Stalin. Suas obras interditadas começariam a ser republicadas e ela pôde viver numa pequena "dátcha". Começando a ser reconhecida no exterior, acabou recebendo o Prêmio Etna Taormina (1960), o título de doutora "Honoris Causa" pela Universidade de Oxford (1965) e a Unesco decretou 1989 como "o Ano Akhmátova". Nessa época, os astrônomos russos deram seu nome a uma estrela recém descoberta.

ESTRATÉGIAS DA TRADUÇÃO

Lauro Machado Coelho optou por fazer uma biografia em que os fatos e os poemas se explicam e se complementam . Pode-se dizer que é, ao mesmo tempo, uma biografia antológica e uma antologia biográfica. É uma opção que afasta o vezo formalista que tem afetado tantas vezes a tradução de autores russos para o português. Até porque Akhmátova pertencia ao grupo de poetas de São Petersburgo chamado de acmeistas, que achavam imprescindível dialogar com a tradição e não exercitavam o furor vanguardista do grupo de Moscou, a que pertenciam poetas como Maiakóvski e Khlébnikov, siderados pela velocidade das máquinas conforme a ideologia futurista.

Em Anna Akhmátova, poesia e vida são uma só unidade. Como disse Mandelshtám, antes de ser eliminado pelo regime comunista: "Não sei como é em outros lugares, mas aqui, neste país, a poesia é algo que cura e devolve a vida...Aqui pode-se matar as pessoas por causa da poesia".

Contextualizando os poemas, o biógrafo também recompõe a trágica história dos intelectuais russos no século 20, e nos obriga a repensar a obnubilação ideológica, que fez com que muitos intelectuais no Ocidente, em sua ingenuidade e alucinação, fingissem desconhecer o holocausto atrás da "Cortina de Ferro", mesmo quando, a partir dos anos 30, tornou-se pública e evidente a política de terror.

Traduzir é sempre um problema que se procura enfrentar de formas diversas. Há quem queira pretensiosamente recriar e melhorar o original, e há quem queira ser fiel e transparente ao primeiro texto. No presente caso, o tradutor e biógrafo desobrigou-se de preservar rimas e métricas que lembrassem o original russo, mas disponibiliza para o leitor o texto original em sua versão fonética. Cuidou de guarnecer o livro com "anexos" que trazem dados biográficos sobre alguns homens importantes na vida de Anna.

Em seu acurado trabalho, Lauro Machado Coelho aceitou o desafio de fazer um comentário detalhado do longo e difícil Poema sem Herói de Akhmátova, texto hermético, definido pela autora como mascarada arlequinal e fantástica, ocorrida na São Petersburgo de 1913.

Hoje, quando alguns se espostejam na chamada pós-modernidade, rejubilando-se com a ideologia dominante, é relevante lembrar uma poeta da resistência. Nesse sentido, o romancista Valientin Fadêiev escreveria a um comissário do povo, rogando que amenizassem os sofrimentos da poeta, pois "apesar da incompatibilidade de seu talento com o nosso tempo, ela permanece a maior poeta da era pré-revolucionária".

É isso: para o artista autêntico sempre há uma incompatibilidade entre seu talento e seu tempo.

(*) Poeta, professor, ensaista autor de "Barroco, do quadrado à elipse" e "Drummond, o gauche no tempo".

Artigo publicado no ESTADO DE SAO PAULO

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Depois do Baile


Moscovo I - Wassily Kandinky, 1916, óleo sobre tela

Mazurka é o nome de uma dança tradicional de origem polaca, feita por pares, formando figuras e desenhos diferentes. Certas coisas são fáceis de se compreender e outras não devido à sua complexidade. Há anos atrás, li um conto que, de certa forma, mexeu com o meu emocional. Aconteceu comigo como aquela brincadeira que fazemos com as palavras ao dizer “entendi, mas não compreendi”, mas contando aqui talvez você compreenda.

A vida é feita de pólos divergentes. Antíteses e paradoxos.

Tudo aconteceu DEPOIS DO BAILE. Um conto de Tolstoi. Fiquei anos com a história martelando dentro de mim... e de repente, como acontece com certos sonhos que vira e mexe se repete, voltei a me lembrar... É uma história de amor à primeira vista do jovem Ivan pela encantadora Várenka. Foi um encontro casual num baile e ambos dançaram juntos a mazurka praticamente a noite toda. Ele se encantou pela moça e a descrevia sempre como linda e deslumbrante; a jovem tinha uns dezoito anos na época e era o centro das atenções. O seu sentimento por ela era correspondido. Ele chegou a conhecer inclusive, o seu pai também naquela mesma noite.

De fato, tudo aconteceu DEPOIS DO BAILE. Ivan viu a sua vida inteira se resumir naquele único dia; toda ela foi radicalmente transformada por aquela infinita e inesquecível madrugada em que ele conheceu o BEM e o MAL. A partir daí sua vida nunca mais foi a mesma.

Assim como eu me lembrei dessa história, aconteceu com Ivan. Depois de muitos anos ele relembrou aquele dia e contou para os seus amigos. Contou que Várenka se casou, teve filhos e mesmo estando numa idade avançada, ele a admirava, e a achava linda e simpática. Passagem da vida de Ivan que modificou o seu modo de pensar. Depois de anos ele repensou seus valores. Concordo que certas experiências são universais, capazes de modificar a condição humana individual.

E a medida que ele ia contando aos amigos esse fato, as suas lembranças daquele dia e pensamentos afloravam. Ivan contou que conheceu o pai da jovem também naquele baile. Ele era um militar do exército. O coronel se retirou mais cedo do baile deixando a sua filha ficar um pouco mais naquela festa, talvez até o fim. A noite foi esplêndida para Ivan. Viu-se perdidamente enamorado pela jovem. Foi o dia mais feliz de sua vida.Trocaram olhares e e-mails. Este último é por minha conta.

“Como acontece com o conteúdo de uma garrafa que, após a primeira gota vertida, começa a fluir em grandes jatos, também na minha alma o amor por Várenka liberou toda a capacidade de amar que se ocultava no meu íntimo.”

A felicidade de Ivan durou pouco. Ao partir, foi testemunha de algo desagradável que aconteceu no caminho. Ele, DEPOIS DO BAILE, ouvia outro tipo de música que era do tipo áspera, desagradável e maldosa acompanhado ao som de flauta. Eram soldados castigando um tártaro por tentativa de fuga. O tártaro foi maltratado de inúmeras formas, espancado, surrado e arrastado por aqueles militares que apenas cumpriam ordens vindas de seu superior e numa procissão pelas ruas cobertas de neve tudo sob o comando do coronel, pai de Várenka.

Ivan teve em uma única noite a melhor e a pior experiência de sua vida. Conheceu o Amor (bem) e a Dor (mal) no mesmo dia. As pessoas sabem de coisas que não sabemos. Foi exatamente isso que Ivan pensou do coronel.

“Se eu soubesse o que ele sabe, talvez eu o compreendesse, e aquilo que eu vi, não me atormentaria assim.”

E por causa dessa noite, Ivan nunca mais foi o mesmo; sua vida inteira foi transformada por esse dia. E ele próprio chegou à conclusão que não prestou para nada. É claro e lógico que ele contando isso aos amigos, eles, evidentemente, não concordaram e achavam tudo isso uma grande tolice. Eles ficaram intrigados com a questão sentimental de Ivan, o que aconteceu com todo aquele amor e por que a sua amada se casou com outro? Então perguntaram:

- Bem, e o amor? Em que deu?

- O amor? O amor, daquele dia em diante começou a minguar. ... o amor definhou e acabou.

Não se chega ao fim sem se passar pelo início; não se morre sem se ter nascido. Trocar uma margem pela outra elimina a possibilidade de totalização. Pode-se até escolher entre a noite e o dia. A aurora  é uma nova possibilidade. Bom quando se faz a coisa certa, mas errar faz parte. Os opostos se atraem: amor e ódio, bem e mal, guerra e paz... dois lados de uma mesma moeda. Uma coisa existe em função da outra.

Às vezes é necessário esquecer o que nos ensinaram e tentar aprender sozinho, pois só assim se acerta ou se erra ainda mais. Adquire-se experiência. Certas passagens da vida ficam registradas para sempre. Guarda-se o que se quer. Lembranças que não se escolhe podem vir à tona quando menos se espera. O ser é resultado daquilo que lê, que come, que faz, que vive; são tantas as possibilidades que o permeiam... do nada pode-se viver situações inusitadas....agora, por exemplo você lendo isto, poderia estar fazendo outra coisa....

Decerto, DEPOIS DO BAILE, depois de um filme, depois do almoço, depois de um beijo, depois de uma leitura de um poema ou um conto... não se é mais o mesmo.

As coincidências do mundo ficcional não são obras do acaso. Tudo depende das circunstâncias. Ela imita a arte da vida.

Anos depois, Ivan, ao contar essa história aos amigos o modo de pensar já era outro; o que ele viu e viveu no passado poderia ser uma perversão. Se a história do tártaro aconteceu era porque alguma coisa eles sabiam que Ivan não sabia, e ele nunca descobriu o que era. E ele conclui que é uma das coisas que podem modificar e dirigir a vida de um homem para sempre.

E a questão do 'entender e não compreender' achava terrível e inconcebível que uma obra ficcional não terminasse na forma convencional do 'Foram felizes para sempre' como acontece nos contos de fadas.

Na Arte tudo é possível. Relendo um livro, facilmente se consegue tirar novas conclusões, repensar valores e alterá-los; já na vida, devido a muitas circunstâncias diferentemente da ficção, pode-se também rever conceitos e até modificá-los. É difícil, mas não impossível.
Eunice Bernal

Depois do Baile – Leon Tolstoi - Cotação: *****