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terça-feira, 8 de setembro de 2009

Arca Russa

Arca Russa,de Alexandr Sokurov

Como não gostar de poesia, de arte, da literatura e da língua russa? Como não gostar de cinema russo? Esta última é a minha paixão incondicional, principalmente após assistir ao ARCA RUSSA de Alexandr Sokurov. Um filme diferente de tudo o que você certamente já viu, ou se ainda não viu, verá e concordará; ou se já viu algo parecido, creia que qualquer semelhança é mera coincidência. O filme é uma obra poética em versos.
A história de 300 anos de arte é contada em 97 minutos em um único plano-sequência, sem cortes, dentro de um dos maiores museus do mundo: o Palacete de Hermitage, em São Peterburgo, atravessando as 35 salas do museu, transformando a tela de cinema em um quadro vivo onde desfilam personagens importantes da história da Rússia: Pedro, O Grande; Catarina II, Nicolau e Alexandra.

O museu de Hermitage é tratado como um ser vivo e Sokurov empresta alma a ele, mesclando poesia, artes plásticas, literatura e sétima arte.
Arca Russa é uma experiência visual única e inesquecível.

Para contar essa história, o próprio diretor vaga pelo museu com a sua câmera no ombro, uma volta ao passado como se fosse uma das personagens do século XIX, saído das telas de um dos quadros, perdido e confuso, conversa com muitos que por ali passaram, pessoas importantes que o visitaram ou com os simples mortais visitantes do museu. As grandes festas que aconteciam lá nesse museu com grandes personalidades daquele século. Assiste-se ao filme e se tem aula de arte e história, além de um passeio panorâmico em todos os seus ambientes. E o tempo todo interage com os quadros, conversando com eles, se esbarrando com alguns personagens e se questionando “Onde afinal estou?” “O que está acontecendo?”

O diretor-protagonista dialoga com um único personagem (fantasma?) que aparece no museu e fala russo, com sotaque francês que será a partir desse encontro o seu guia pela excursão ao museu. Ele nada explica, pelo contrário, confunde mais ainda, apenas especula e tudo torna-se instigante e nada revelador. Caberá ao expectador desvendar alguns mistérios e as mensagens cifradas. O guia representa o conflito de identidade da aristocracia e da arte russa e ela insiste em dizer que "os russos estão sempre a copiar, não têm idéias próprias". (Na vida nada se cria, tudo se copia). O expectador é que deverá fazer suas próprias descobertas e fazer parte desta viagem sem fim. O filme é matéria e essência; é todo o sentido da vida; morte e vida atuando juntos; presente e passado. Aqui não vale dizer a frase debochada “Quem vive de passado é museu”, pois o passado faz-se presente a todo instante, basta contemplar um dos quadros, basta se folhear um livro, abrir um álbum de fotos, reler uma carta amarelada...
O filme todo está em sintonia com a proposta do diretor de um único plano, mesmo assim, há quem diga que encontrou alguns cortes, como por exemplo, na cena em que ele fecha em um par de luvas, ou passa por trás de uma pilastra, importa mesmo? Só reparei nesses detalhes apontados por críticos na minha segunda sessão. Particularmente, acho irrelevante. Mas a crítica, sempre a crítica sutilmente invejosa...

Arca Russa abre portas em vez de fechá-las. "Estamos condenados a navegar sempre", conclui o narrador ao final. Como em boa parte do cinema sokuroviano, fala de um navegar sem ter bússola como parâmetro, pois o passado, induz o diretor, não é necessariamente farol para o futuro.

Cotação: Excelente! Valeu “`a pena” desta poesia reler. Valeu a pena desta fonte beber.
Karenina Rostov
***
Curiosidades sobre o diretor russo Alexandre Sokurov

* Sokúrov é considerado por Paul Schrader e Martin Scorsese, diretores que também atuam como teóricos de cinema, como o mais legítimo herdeiro do "estilo transcendental", no qual inserem também o dinamarquês Carl T. Dreyer, o francês Robert Bresson e o russo Andrei Tarkóvski. O diretor também continua a tradição de mestres russos do cinema silencioso russo, como Serguei Eisenstein e Aleksandr Dovjenko. Seus filmes constituem experiências estéticas e intelectuais de impacto para platéias com atenções voltadas para algo além da velocidade e superficialidade oferecidas pelos grandes estúdios. Seu refinamento na construção visual das imagens, que o convertem em um "cineasta-pintor", irritou os censores e poderes da antiga URSS, que proibiu todos os seu filmes de 1978 até 1987.

* A entrevista foi realizada em Cannes, em maio de 2002, nos dias subseqüentes à estréia mundial de Arca russa, uma produção ambiciosa, ambientada no interior do Museu do Hermitage (São Petersburgo) e registrada em uma única tomada sem cortes, de 96 minutos. Um feito técnico e artístico que deverá passar aos anais da história do cinema.

Gênero - Arte


Direção - Alexander Sokurov

Idioma - Russo

Ano de produção - 2002

País de produção - Russia, Finlandia, Dinamarca, Canadá, Alemanha

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

O Retorno

O RETORNO

O título de uma produção artística, seja uma novela, um conto, um romance, um filme, geralmente, nos dá uma vaga idéia do que se trata a obra.

Foi o que pensei quando assisti ao primeiro filme do diretor russo Andrey Zvyagintsev: O RETORNO. A verdade é que nem sempre é possível, simples e fácil assim de se entender.

O Retorno é um deles; é uma caixinha de surpresas. É uma obra complexa. Chega o momento que a sessão de 105 minutos acaba, porém, a história em nossas mentes e entranhas, apenas começa. Começa e não termina ... não termina bem. E alguém acrescentaria: “Você faz o final da história, você decide”.

A primeira leitura que se pode fazer da obra O RETORNO é de um pai ausente, que abandona o lar - esposa e dois filhos. E doze anos depois retorna como se nada tivesse acontecido, como se tivesse apenas ido à padaria comprar cigarros. No mesmo dia de sua chegada, ele toma banho, faz sexo com a esposa, dorme, se levanta e ceia com os seus como se tudo fosse a rotina de familiar.

Que mistério é esse? Por onde andou esse ser que chega do nada, sem nenhuma explicação e retoma esse rumo de sua vida? A partir daí começa todo questionamento possível dessa história sem fim. O que aconteceu? Por onde ele andou? E como a família viveu esse tempo todo de seu sumiço, ou desaparecimento sem uma explicação plausível para esse fato insólito?

Os filhos agora adolescentes têm as mesmas dúvidas do expectador. “Será mesmo o nosso Pai?” Um dos filhos recorre ao álbum de família para tentar reconhecer essa pessoa que certamente nem se lembravam mais que um dia tiveram um. Como reconhecer o desconhecido? Mistério...

Na história de Homero, A ODISSÉIA, Penélope não reconheceu Odisseu (Ulisses), com quem dormiu uma vida inteira e teve com ele um filho, o ajuizado Telêmaco. A comprovação só veio por detalhes que ele a fez lembrar. Teve que provar que ele era ELE. Duas delas são: a cicatriz que ele tinha na perna causada pela mordida de um javali; a outra é a da cama do casal que fora construída do tronco de uma árvore.

E em O RETORNO? São tantos os questionamentos: um pai misterioso, desaparecido, estaria morto, ou fora seqüestrado? Por onde ele andou, o que fez, por que voltou? Teria outra família?

O filho mais novo cheio de medos e angústias; na presença do pai, aquele que amargurado e rancoroso é capaz de enfrentá-lo; o mais velho demonstra valentia e esperteza; na presença paternal, amável e submisso.

A novidade é que a figura paterna ausente, aquele que na família deveria dar segurança e proteção desaparecido por mais de uma década chegando em um carro simbolicamente vermelho, com autoridade de quem esteve acompanhando todos os momentos e fases de crescimento físico e emocional dos que mais lhes são caros, e que deveria prezar, ordena-lhes que na manhã seguinte madruguem para um passeio de carro e pescaria. Um passeio e tanto. Uma história marcante, recheada de belas imagens poucos diálogos que fatos e ações falam por si. Belas imagens registradas também pela máquina fotográfica de um dos filhos.

E contar o filme seria estragar todas as surpresas que ele apresenta. Um formidável argumento para se ficar horas, dias contando e recontando-a, talvez na tentativa de desvendar alguns de muitos mistérios nele apresentados.

Como se ausentar durante um longo período e não perceber mudanças e transformações que o ser humano querendo ou não passa? Dois filhos do mesmo sangue, com personalidades tão diferentes.

São muitos os retornos, e fazer uma viagem pelas estradas da vida é uma tentativa de reencontrar e reconciliar um passado quase esquecido, talvez adormecido ou arquivado na memória de um povo, de uma família, e desenterrá-lo na ilha da fantasia, salvar o tesouro perdido, atar os elos perdidos, compartilhar com os entes queridos, recomeçar uma nova vida às vezes não é fácil ou possível.

Nem sempre se consegue salvar a caixinha de pandora e desvendar o seu conteúdo. Talvez seria mais cômodo deixá-lo no fundo do lago como se ela nunca tivesse existido.

Um filme sensível, formidável e apaixonante...uma caixinha de belas e poéticas surpresas.


O RETORNO

Vozvrashcheniye,
Rússia, 2003.
Direção: Andrey Zvyagintsev.
Roteiro: Vladimir Moiseyenko e Aleksandr Novototsky.
Elenco: Vladimir Garin, Ivan Dobronravov, Konstantin Lavronenko, Natalya Vdovina e Galina Petrova.
Fotografia: Mikhail Krichman.
Montagem: Vladimir Mogilevsky.
Direção de Arte: Zhanna Pakhomova.
Música: Andrei Dergachyov.
Figurinos: Anna Barthuly.
Produção: Dmitri Lesnevsky.