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sábado, 2 de abril de 2011

Os Óculos de Pedro Antão

"O amanhã já é hoje."


Machado de Assis na telona

O cinema e a literatura são expressões artísticas distintas, porém com profundas ligações entre si. Em ambas há vida, história, sub-histórias, personagens, espaço geográfico, tempo e um pouco mais. A relação entre ambas estreita-se quando a linguagem literária é adaptada para o cinema, e transformada neste outro universo.   

 E filmes baseados em romances, peças teatrais, contos, poesia ou letra de música, sempre dão o que falar: ou recebem críticas negativas, ou são exaltados aos extremos, um meio termo é quase impossível. O mundo do cinema envolve atores, direção, música, imagens, movimento, edição, produção, transpiração e inspiração, enquanto que o mundo da literatura abrange apenas a imaginação e retórica do escritor. Não se pode esquecer de que o ato de criar requer inspiração e estímulo em qualquer manifestação artística. De qualquer modo, é uma via de mão dupla, um acaba contribuindo ou acrescentando à arte do outro; no caso de adaptação livre, pode radicalmente transformar em nova obra. Há uma extensa lista de autores nacionais e estrangeiros  adaptados para o cinema: O Processo, Fahrenheit 451, Vidas Secas, Anna Karenina, Dom Casmurro, Guerra e Paz, A Grande Arte, A Cartomante, são alguns exemplos deles.

Um dos filmes que assisti recentemente é adaptação do conto de *Machado de Assis  "Os Óculos de Pedro Antão", um suspense formidável, e confesso que me causou ótima impressão. Cheio de pontos de virada, ótima pedida para aqueles que gostam de uma boa literatura e curtem cinema.

E  eis o resumo dessa história:

Pedro recebe uma carta do amigo Mendonça, solicitando sua companhia para uma missão, no mínimo curiosa: acompanhá-lo para abrir a casa que recebera de herança de seu tio Antão, falecido dez meses antes de forma misteriosa. À meia noite, os dois amigos entram no casarão de aspecto lúgubre.

Pedro, munindo-se dos elementos que encontra no caminho, compõe, tal qual um detetive, a história do final da vida do finado. Aos poucos ele revela sua conclusão: um romance proibido com uma jovem e um final trágico. Uma escrivaninha trancada é a esperança de Pedro de comprovar sua história.
* Mas qual não é a surpresa de ambos ao abrirem a tal escrivaninha?!

Trata-se de uma história instigante, um  conto investigativo e a adaptação ficou bem contextualizada e arrematada, um suspense de tirar qualquer mortal do sério, prendendo  a atenção do início ao fim, principlamente quando lemos a obra e depois vendo personagens ganhando forma, movimento, cores, expressões fisionômicas transmitindo ação e emoção. A escolha do elenco e a direção não poderia ser melhor a esse thriller de mistério que só a genialidade e a criatividade de Machado de Assis para presentear seus leitores com muito bom gosto. Perfeitos!  Que não leu, ou não assistiu, não sabe o que está perdendo. Essa correlação literatura / cinema é uma ótima forma de **incentivo à leitura. Faz surgir comentários do tipo: “Gostei do filme, agora vou ler o livro.”   

O clima de suspense prende a atenção, e o expectador-leitor ligam-se aos personagens, tornando-se únicos, investigado e investigador tentando decifrar cada objeto, pessoa  e situação que compõe o cenário assustador. Às vezes a obra literária ofusca a cinematográfica e / ou vice-versa. Em Os Óculos de Pedro Antão, elas se complementam. E a imaginação também ajuda, superando a realidade.  

Ótima pedida!

* Sou fã do imortal, o maior nome da literatura brasileira, um artista da palavra completo.

* Está neste conto a maior pegadinha da história da literatura brasileira. Tem que assistir para saber.

** Bom material como suporte à disciplina Literatura Brasileira.

Karenina Rostov
*
Direção e Roteiro: Adolfo Rosenthal
Elenco: Michel Bercovitch, Bruno Mello, Karen Marinho, Roberto Pirillo e Luiza Tom

"Quero conjugar o verbo amar no presente do indicativo."  

"Eu aprendi a arte de interpretar as coisas insignificantes."



terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Lixo Extraordinário

Lixo Extraordinário (2009)

Yes, nós temos esperança! 
Assisti ontem ao documentário Lixo Extraordinário, produzido em 2009 e dirigido a seis mãos pelos brasileiros João Jardim e Karen Harley e pela diretora inglesa Lucy Walker. A obra me causou uma sensação gratificante e de esperança.

Lixo Extraordinário é o lixo comum, produzido por estabelecimentos comerciais e residenciais até uma determinada quantidade, e  são classificados como lixo domiciliar, para diferenciar do lixo infectante. 

A palavra ‘extraordinário’ foi uma escolha acertada para qualificar o substantivo lixo, e com certeza não podia ser melhor, já que seu significado de sentido forte e imponente, caindo como uma luva para este documentário.

O adjetivo extraordinário significa: excepcional; singular; raro; excessivo; em elevado grau; muito grande; descomunal; anormal; assombroso; estupendo, exatamente o que a história vem nos contar.


O filme me fez viajar por algumas situações: um brechó em meu bairro de nome Lixúria, a mistura de lixo ao luxo. Outra lembrança que veio à tona é de uma senhora de uns 60 anos, com problemas mentais que vivia e trabalhava no aterro sanitário, ou lixão de Gramacho, e foi por acaso descoberta no ano 2000 pelo fotógrafo e diretor Marcos Prado que apresentou ao público em 2004 através do documentário sob o nome dela: Estamira. Este aterro sanitário é um dos maiores do mundo, o maior da América Latina, localizado em Jardim Gramacho, bairro periférico de Duque de Caxias e que recebe os resíduos produzidos na cidade do Rio de Janeiro.

A minha outra viagem foi em um texto lido casualmente hoje, intitulado: Vai dar bichos e cheirar mal. Gostei tanto que reproduzirei alguns trechos dele:

Querer ter mais do que o necessário é demonstração de insensatez. É revelação da falta de entendimento do que é a vida, do que representam as riquezas materiais: “porque a vida de um homem não consiste na abundância dos bens que ele possui.” Segundo Rubem Amorese (Ultimato – Set/Out – 2003), os pensadores modernos associam felicidade à saciedade, à satisfação plena dos desejos. Há sérios riscos e perigos em querer ter mais do que o necessário; perigos que dizem respeito ao tempo, aos recursos financeiros, aos talentos, aos bens materiais em geral, à própria vida, enfim. Sejamos cuidadosos: estejamos vigilantes, a fim de que aquilo que ajuntamos, não dê bichos e não cheirem mal.”

Esta passagem descreve perfeitamente o documentário Lixo Extraordinário que mostra o encontro de Vik Muniz, um artista plástico brasileiro de São Paulo que atualmente vive em Nova Iorque, com pessoas que por falta de oportunidades, trabalham num aterro sanitário recolhendo material reaproveitável: papelão, garrafa pet, plástico, alumínio, ferro. O trabalho desse artista é reutilizar todo tipo de material impensável para fazer arte, tais como açúcar, terra, pneus, brinquedos mobília, aparelhos  elétricos e eletrônicos etc,  mesclando tudo com seus registros fotográficos.
Vik Muniz tomou a decisão de voltar ao Brasil e ficar por dois anos no Rio de Janeiro; firmou acordo com esses trabalhadores informais numa troca favores. Os catadores trabalhariam para ele durante esse período recolhendo materiais e servindo de modelo vivo para a sua arte e posando para fotos; e receberiam os valores monetários correspondentes e algo mais no final. Foi gratificante para os dois lados: para o artista e para esses trabalhadores que ganharam além de tudo, um amigo e novas oportunidades de saírem daquela condição, olhar o mundo daquele ponto e enxergar coisas novas além do horizonte. 

No primeiro ano o artista plástico fez o reconhecimento da área, travou relacionamento com muitos deles, e a partir daí  passamos a conhecer algumas histórias comoventes. Ele comenta com o seu colega de trabalho que não nota ninguém ali trabalhando naquela condição, infeliz ou deprimido. São pessoas comuns, como qualquer outra, apenas não tiveram chance de ter um trabalho melhor. Pessoas felizes, em uma renda de R$ 50,00 por dia, sabendo-se que há profissões em nível superior que não chega a ganhar isso.

Sempre com sua câmera, Vik registra tudo e todos, para depois selecionar o material e explorar isso em seu processo de criação e da sua arte final.
Um deles é Tião, presidente da Associação dos Catadores do Jardim Gramacho, personagem marcante da comunidade que encontrou uma banheira em perfeito estado, e o artista teve a idéia de fotografá-lo na pose do revolucionário Murat que fora assassinado em sua casa dentro da banheira e foi pintado por Charlotte Corday. O quadro de Vik ficou bem parecido com a pintura original que ele resolveu levar para ser leiloado em Londres, e nessa viagem levou Tião para participar. Aproveitou e levou-o para conhecer um museu onde havia obras de Basquiat e outros artistas contemporâneos e conversaram muito sobre arte.  O rapaz ficou encantado com tudo que viu e ouviu e não fez feio.

O filme começa e termina no mesmo ponto: no Programa de Jô Soares apresentando o brasileiro Vik Muniz como o artista dos remakes de obras mais famosas, porém usando material inusitado; e ao término mostrando um dos catadores que termina dizendo ao entrevistador algo como:

“- Não somos catadores de lixo; somos catadores de material reciclável.”

 Lixo é tudo igual, o do pobre e o do rico se misturam no aterro sanitário e tornam-se únicos. Há até um momento de descontração entre eles comentando o lixo de cada um. E o filme nem por um momento varre seu lixo para debaixo do tapete.  Sabe-se que incomoda; os preconceituosos dizem que o nosso país só gosta de mostrar favela e miséria. E eu digo que não se trata mais de favela, mas de comunidade, não são catadores de lixo, mas catadores de material reaproveitável. E neste aterro que prometeram fechar suas portas em 2012, nenhum deles gosta de ser tratado como coitadinho, são pessoas, são histórias, são vidas que trabalham, pagam contas, sabem ler, se apaixonam, sorriem, choram, sentem dor de dente e falam  bonito.

Em Lixo Extraordinário aprende-se, nas entrelinhas, que 99 não é 100; aprende-se com a dor da perda de um filho a ser solidário e dar o ombro a quem precisa; aprende-se que O Príncipe pode estar no lixo e que Maquiavel serviu para um leitor voraz conhecê-lo e criar uma biblioteca na comunidade.

 E essa história não acaba aqui. Foi parar na exposição do Museu de Arte Moderna – MAM – RJ, e esses protagonistas da vida real estiveram lá, como convidados ilustres para conferir sua arte final.

E cada um desses protagonistas recebeu da mão do artista Vik Muniz, cópia de sua imagem, um belíssimo quadro.   

Vik Muniz já foi um grande consumista. Ao mostrar a casa onde morou, seu quarto de paredes e teto úmidos por causa da chuva frequente de São Paulo, em um bairro de classe média-baixa, comentou isso, dizendo que, como todo jovem sempre sonhava em ter, comprar, gastar, possuir. E um lindo dia acordou e descobriu que não se precisa ter tanta coisa para ser feliz.

Gratificante. Uma lição de vida. Uma obra de arte. Sem dúvida, merecedor de todos os prêmios. É bem verdade que sempre torci pelo meu país, só que agora torcerei um pouco mais.

Bem, o filme durou 99 minutos, o aterro no Jardim de Gramacho fechará as portas (ou só mudará de endereço?), mas a vida continua. Não se sabe o que será dessa gente que precisa desse trabalho para viver, mas certamente não ficarão desempregados.    

Parece que desta vez o Brasil (em co-parceria) conquistará o tão cobiçado prêmio de academia. Caso nada ganhe, saiba que já te elegi o melhor, mesmo não tendo assistido aos outros.

Karenina Rostov


*****
Título: Lixo Extraordinário
País: Brasil e Reino Unido
Ano de produção: 2009
Tempo: 99 minutos min
Direção : Lucy Walker, João Jardim e Karen Harley
Gênero: Documentário
Idioma original: Inglês

Ôpa! Isso não faz parte do filme, ok? :*

terça-feira, 6 de julho de 2010

1,99 - Um Supermercado que Vende Palavras

"O dia, a água, o sol, a lua, a noite, tudo isso não compro com dinheiro; tudo mais que queremos, compramos." (Plauto)

Cinema Nacional sem Legendas (2)

1,99 - UM SUPERMERCADO QUE VENDE PALAVRAS
A produção cinematográfica dos tempos atuais é imensa; várias nacionalidades e gêneros sendo impossível acompanhar tudo, e a qualidade fica a desejar. Enxurrada de filme descartável. Em três minutos após uma sessão, não nos lembramos sequer do título, com raras exceções. Uma dessas exceções já considero não só um clássico como também cult do cinema brasileiro, ficou pouquíssimo tempo em cartaz, não lotou salas, por isso não está na lista dos campeões de bilheterias, é o  1,99 - UM SUPERMERCADO QUE VENDE PALAVRAS. de Marcelo Masagão. Dele, o público brasileiro aprovou e aplaudiu o Nós Que aqui Estamos por Vós Esperamos.

O que me atrai da sétima arte é geralmente um roteiro inteligente, e nada convencional; como diz um amigo “aquilo que não é óbvio” e o cinema brasileiro tem o talento deste cineasta, representando muito bem a sua categoria no quesito roteiro, direção e arte; o dom e a sensibilidade na narração de um conto de fadas à altura de Ettore Scola, por exemplo, na direção de O BAILE, completamente sem diálogos ponto de contato entre ambos.
Os setenta minutos do filme ‘1,99’ se passa dentro de um supermercado completamente branco onde os clientes, oitenta ao todo, vão às compras dos produtos principais dessa loja que são simplesmente PALAVRAS, e lá acontecem situações bem curiosas. Os 'protagonistas' deste conto de Masagão são:  o desejo, a angústia e a compulsão que representam a ânsia  que o homem tem de comprar e gastar. Essa idéia de fazer um supermercado estilizado como uma instalação de arte, inteiramente branco saiu da leitura do livro NO LOGO, (em português Sem Logo - A Tirania das Marcas em Um Planeta Vendido), da jornalista canadense Naomi Klein. Neste livro a autora faz uma rigorosa e surpreendente análise de como as grandes marcas têm necessidades intrínsecas de se fetichizar ao infinito para sobreviver. O roteiro é instigante. Não só a cor da loja como todos os seus produtos nas comportadas prateleiras da mesma cor; caixas empilhadas apenas com o nome nas embalagens. O que você compraria numa loja de preços populares, ou R$ 1,99 além de amor, saúde, felicidade, compaixão, vida? Interessantes histórias ocorrem neste lugar, onde ninguém consegue sair, a comunicação e totalmente visual, por slogans, palavras e frases soltas espalhadas pela loja; pessoas brigando pelo último mesmo produto, idosos entrando nas geladeiras simbolizando talvez a morte...
 O diretor fez combinações formidáveis de imagens impactantes com pequenos textos ou palavras isoladas, espalhadas pelo mercado, entre pacotes e produtos, desafiando os rótulos convencionais, não considerando exatamente um documentário, já que utiliza atores e retrata idéias e não fatos comprovados; e toda obra tem um pouco de ficção.

Loja de 1,99 (preço, precinho, como diz uma propaganda), especializada na venda de conceitos, o valor de uma pechincha ilustrando muito bem o mundo atual com a febre de consumo imediato e tudo que existe e que assola o homem moderno, definindo-o como ‘você é aquilo que possui’; compra-se sem necessidade, coisas que não se precisa que nunca se usará pelo mero prazer do que simbolizam: o status, um estilo de vida sonhado, mas nunca alcançado, já que sua regra básica implica na própria necessidade de querer sempre mais e mais.

Os fregueses deste supermercado de 1,99 pertencem a uma classe social definida como a elite, a classe A e B,  representados pela cor de seus trajes sempre claros; já no lado de fora, há outro tipo de consumidor trajando diferentes cores aguardando o convite para entrar, simbolizando os excluídos. Pessoas de todas as faixas etárias passeiam  com seus carrinhos, buscando entre um corredor e outro, nas prateleiras, o produto desejado. O filme soa familiar, a rotina nossa de cada dia de ir às compras, ao  mercado de preferência, passar pelo mesmo caixa, esbarrar nos funcionários patinadores repondo mercadorias ou em outros afazeres, passar pela cortesia do cafezinho, comprar supérfluo...  

“Consumir tornou-se, para a maior parte das pessoas, uma fonte de prazer quase orgástica; e introduzir o cartão na fenda do caixa eletrônico iguala-se, portanto, ao ato sexual em si.”

Se eu fosse dar um Oscar para um filme brasileiro (não que ache isso importante) seria pra este de Marcelo Masagão pela sua originalidade e criatividade. Nosso país vai ganhar, acredite, pois tem potencial para isso, nosso cinema é tudo de bom, idéias brilhantes, e originais tem-se de montão, como também capacidade e boa vontade.

O filme possui uma narrativa com situações bem contextualizadas. E o seu gênero, POESIA MODERNA. E então, que mercadoria deste supermercado você colocaria no seu carrinho?

Considero 1,99 Um Supermercado que Vende Palavras, uma obra-prima do cinema nacional. Não deixe de COMPRAR essa idéia. Assista!
Cotação: *****
Karenina Rostov
______________

FICHA TÉCNICA

Título Original: 1,99 - Um Supermercado Que Vende Palavras.
Origem: Brasil, 2003.
Direção: Marcelo Masagão.
Roteiro: Marcelo Masagão e Gustavo Steinberg.
Produção: Clarissa Knoll e Gustavo Steinberg.
Fotografia: Hélcio Alemão Naganine.
 Música: Wim Mertens e André Abujamra.
  Aqui você pode entrar!

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Salve Geral

O filme brasileiro de Sergio Rezende candidato ao OSCARito 2010 saindo do forno. Depois de Carandiru, Cidade de Deus, Tropa de Elite, sempre vale a pena prestigiar o nosso cinema.

Eis um trecho do diretor.

sábado, 18 de julho de 2009

O VESTIDO – Esse Obscuro Objeto do Desejo

O VESTIDO – Esse Obscuro Objeto do Desejo

Carlos Drummond de Andrade é o meu poeta brasileiro preferido. O Caso do Vestido, é um de seus poemas que considero fascinante e intrigante. Ele é composto de 150 versos distribuídos em 75 estrofes de dois versos cada. É um poema que tem HISTÓRIA, que conta várias histórias tendo como protagonista um objeto que é um VESTIDO.

Eis o poema:

CASO DO VESTIDO
Nossa mãe, o que é aquele
vestido, naquele prego?

Minhas filhas, é o vestido
de uma dona que passou.

Passou quando, nossa mãe?
Era nossa conhecida?

Minhas filhas, boca presa.
Vosso pai evém chegando.

Nossa mãe, dizei depressa
que vestido é esse vestido.

Minhas filhas, mas o corpo
ficou frio e não o veste.

O vestido, nesse prego,
está morto, sossegado.

Nossa mãe, esse vestido
tanta renda, esse segredo!

Minhas filhas, escutai
palavras de minha boca.

Era uma dona de longe,
vosso pai enamorou-se.

E ficou tão transtornado,
se perdeu tanto de nós,

se afastou de toda vida,
se fechou, se devorou,

chorou no prato de carne,
bebeu, brigou, me bateu,

me deixou com vosso berço,
foi para a dona de longe,

mas a dona não ligou.
Em vão o pai implorou.

Dava apólice, fazenda,
dava carro, dava ouro,

beberia seu sobejo,
lamberia seu sapato.

Mas a dona nem ligou.
Então vosso pai, irado,

me pediu que lhe pedisse,
a essa dona tão perversa,

que tivesse paciência
e fosse dormir com ele...

Nossa mãe, por que chorais?
Nosso lenço vos cedemos.

Minhas filhas, vosso pai
chega ao pátio. Disfarcemos.

Nossa mãe, não escutamos
pisar de pé no degrau.

Minhas filhas, procurei
aquela mulher do demo.

E lhe roguei que aplacas
sede meu marido a vontade.

Eu não amo teu marido,
me falou ela se rindo.

Mas posso ficar com ele
se a senhora fizer gosto,

só pra lhe satisfazer,
não por mim, não quero homem.

Olhei para vosso pai,
os olhos dele pediam.

Olhei para a dona ruim,
os olhos dela gozavam.

O seu vestido de renda,
e colo mui devassado,

mais mostrava que escondia
as partes da pecadora.

Eu fiz meu pelo-sinal,
me curvei... disse que sim.

Sai pensando na morte,
mas a morte não chegava.

Andei pelas cinco ruas,
passei ponte, passei rio,

visitei vossos parentes,
não comia, não falava,

tive uma febre terçã,
mas a morte não chegava.

Fiquei fora de perigo,
fiquei de cabeça branca,

perdi meus dentes, meus olhos,
costurei, lavei, fiz doce,

minhas mãos se escalavraram,
meus anéis se dispersaram,

minha corrente de ouro
pagou conta de farmácia.

Vosso pais sumiu no mundo.
O mundo é grande e pequeno.

Um dia a dona soberbam
e aparece já sem nada,

pobre, desfeita, mofina,
com sua trouxa na mão.

Dona, me disse baixinho,
não te dou vosso marido,

que não sei onde ele anda.
Mas te dou este vestido,

última peça de luxo
que guardei como lembrança

daquele dia de cobra,
da maior humilhação.

Eu não tinha amor por ele,
ao depois amor pegou.

Mas então ele enjoado
confessou que só gostava

de mim como eu era dantes.
Me joguei a suas plantas,

fiz toda sorte de dengo,
no chão rocei minha cara,

me puxei pelos cabelos,
me lancei na correnteza,

me cortei de canivete,
me atirei no sumidouro,

bebi fel e gasolina,
rezei duzentas novenas,

dona, de nada valeu:
vosso marido sumiu.

Aqui trago minha roupa
que recorda meu malfeito

de ofender dona casada
pisando no seu orgulho.

Recebei esse vestido
e me dai vosso perdão.

Olhei para a cara dela,
quede os olhos cintilantes?

quede graça de sorriso,
quede colo de camélia?

quede aquela cinturinha
delgada como jeitosa?

quede pezinhos calçados
com sandálias de cetim?

Olhei muito para ela,
boca não disse palavra.

Peguei o vestido, pus
nesse prego da parede.

Ela se foi de mansinho
e já na ponta da estrada

vosso pai aparecia.
Olhou pra mim em silêncio,

mal reparou no vestido
e disse apenas: — Mulher,

põe mais um prato na mesa.
Eu fiz, ele se assentou,

comeu, limpou o suor,
era sempre o mesmo homem,

comia meio de lado
e nem estava mais velho.

O barulho da comida
na boca, me acalentava,

me dava uma grande paz,
um sentimento esquisito

de que tudo foi um sonho,
vestido não há... nem nada.

Minhas filhas, eis que ouço
vosso pai subindo a escada.
Carlos Drummond de Andrade
Uma obra literária EM VERSOS, transformada em um belíssimo filme nacional: O VESTIDO dirigido por Paulo Thiago, roteirizado por ele e por Haroldo Marinho Barbosa.

A literatura é TÃO imprescindível e fundamental quanto a música, o cinema entre outras manifestações artísticas. E falar em literatura vale lembrar que toda poesia nem sempre é de fácil compreensão, interpretação ou tradução. Ser considerada obra aberta, não significa que ela possa ser escancarada.

Em se tratando de cinematografia, tornou-se lugar comum o encontro de duas linguagens (literatura e cinema), os textos literários em prosa transformados em belíssimos filmes. Não querendo entrar no mérito de grau de igualdade, inferioridade ou superioridade, ou melhor, se o filme superou ou não a literatura, e vice-versa, não deixando de ser um assunto relevante, porém para outro momento.

O poema O Caso do Vestido do Drummond, é inédito, que eu saiba, saindo das páginas líricas, e sendo transformado primeiramente num ótimo romance pelas mãos de Carlos Herculano considerado um dos mais talentosos da nova geração, vencedor de vários prêmios literários e posteriormente um argumento para roteiro do filme proposto pelo cineasta Paulo Thiago que, como eu, é também fã do poeta Drummond. É claro que o romancista mineiro Herculano topou, graças a ele, temos somado ao cinema nacional um dos filmes mais brilhantes e formidáveis lançado em 2004 que é esse homônimo - O VESTIDO.

E a storyline ficou ótima: A descoberta de um antigo vestido faz com que duas irmãs decidam investigar o passado de sua família. Sem falar nas ótimas atuações de todo o elenco escolhido a dedo: Gabriela Duarte, Ana Beatriz Nogueira, Leonardo Vieira, Paulo José e Daniel Dantas.

E a sinopse não ficou para trás: Por acaso duas meninas descobrem, no porão de sua casa, um velho e lindo vestido de festa. Curiosas, elas querem saber corno o vestido foi parar ali, principalmente após verem sua mãe chorando com o mesmo entre as mãos. Elas iniciam então uma investigação, que pode responder ainda outra pergunta: por que sempre à mesa, nas refeições, havia um prato reservado ao pai, que as havia abandonado há muitos anos?

Do poema para o romance e do romance para o cinema, Carlos Herculano Lopes cumpre a proposta e escreve um romance épico de amor e paixão na Minas Gerais dos anos 40, recheando-o com outros personagens e um enredo tão envolvente quanto o do poema. Foi, segundo ele, um desafio interessante escrever este romance.(“O Vestido”, BRA, 2004, 121 min)

O cinema brasileiro nunca esteve tão bom quanto agora; impecável, e o Vestido é intenso e envolvente. O filme é tão sublime quanto o poema. É um leve dois e pague um. Uma obra-prima e mais uma vez Paulo Thiago fez escolha acertada, já que em 2002, ano do centenário do Poeta Carlos Drummond de Andrade, o cineasta lançou o documentário POETA DE SETE FACES.

Lembrando que 2002 foi o ano de centenário do poeta, e até eu me inspirei no poema QUADRILHA para escrevinhar algo do gênero Dramaturgia.
Eunice